Cônego Scipião

Cônego Scipião Ferreira Goulart Junqueira, nasceu em Iguapé, no dia 5 de dezembro de 1825. Filho de Joaquim José Teixeira dos Santos (natural da Freguesia de São Mateus da Ilha do Pico, Bispado de Angra, Portugal) e de Úrsula Maria das Virgens, natural de Iguapé.

Foi batizado em 25 de dezembro do mesmo mês, tendo como padrinhos: Joaquim Manoel Junqueira e Francisca de Paula, filhos solteiros de dona Joanna Chrysostoma. 

Não há informações sobre a sua infância e juventude em Iguapé. Já no dia 19 de março de 1848, entrava para a Irmandade do Santíssimo Sacramento. Fez seus estudos religiosos no Seminário de São José, no Rio de Janeiro, ordenando-se sacerdote em 27 de junho de 1851, sendo despachado no dia 16 de julho do mesmo ano como coadjutor da Paróquia de Iguapé, passando, meses depois, a vigária da vara da comarca. 

Em Iguapé, o padre Scipião teve importante participação política, elegendo-se vereador à Câmara Municipal entre 1851 e 1857. 

Consta que entre 1857 1858, o padre Scipião foi sacerdote em Morretes (PR), que então pertencia à Província de São Paulo, e em Ubatuba (SP). 

EM SANTOS __ Em 1858, o padre Scipião foi transferido para Santos, assumindo a Paróquia de São Vicente Mártir, até 1885, onde teve marcante participação nos cenários social, religioso e político. Celebrou, em 28 de maio de 1866, em Santos, o casamento de Prudente de Moraes, futuro presidente da República, com Adelaide Benvinda da Silva Gordo. Benzeu, em 19 de outubro de 1875, a Igreja de Santo Antônio do Embaré (antiga capela). Quando da visita do imperador D. Pedro II a Santos, no dia 17 de agosto de 1876, o padre Scipião celebrou missa na Igreja Matriz, assistida pelo monarca e comitiva. Participou da inauguração da Beneficência Portuguesa, em 6 de janeiro de 1878, procedendo à bênção do hospital. Oficiou a missa pela restauração da Capela de Santo Amaro na Fortaleza da Barra Grande, em 18 de outubro de 1885. 

Nesta cidade, teve forte atuação política, elegendo-se deputado provincial por seis legislaturas, em 1858-1859, 1860-1861, 1862-1863, 1870-1871, 1872-1873 e 1874-1875, chegando a ocupar a presidência da Assembléia Provincial no período de 1871-1872, 1872-1873 e 1873-1874. Como presidente da Assembléia Provincial, o cônego Scipião teve decisiva participação, ao lado do Dr. João Mendes de Almeida, também deputado provincial, na aprovação da Lei Provincial nº 35, de 6 de abril de 1872, que criou o Distrito de Paz de Prainha (Miracatu), dentro do município de Iguape. Até então, Prainha pertencia ao Distrito de Paz de Santo Antônio de Juquiá, também pertencente a Iguape. 

As eleições em Santos eram bastante agitadas. Numa delas, deu-se uma confusão na única seção eleitoral, na antiga Matriz, na Praça da República. Teve “socos, pontapés, urnas, cadeiras, mesas e outros móveis virados e mais ainda”. O cônego Scipião foi enérgico e proibiu que as eleições se realizassem em igrejas, “que não eram lugar de depravações públicas”. 

A semelhança de muitos religiosos da época, o cônego Scipião também era maçon. Acredita-se que tenha se iniciado na Loja Maçônica “Paz”, que já existia em Iguape antes de 1845 e que pertencia à jurisdição do Grande Oriente Brasileiro do Passeio. Com a sua transferência para Santos, filiou-se à Loja Maçônica “Fraternidade de Santos”. 

A SANTA CASA __ Sempre ligado aos assuntos de sua terra natal, o padre Scipião participou, no dia 15 de maio de 1870, juntamente com um grupo de cidadãos iguapenses, no antigo Largo da Santa Cruz, do lançamento da pedra fundamental do edifício da futura Santa Casa de Misericórdia. Mais tarde, o cônego Scipião doaria em testamento à Santa Casa a importância de dois contos de réis. 

No ano de 1880, o padre Scipíão foi nomeado cônego pelo bispo do Rio Grande do Sul. 

EM CAMPINAS __ Depois de paroquiar em Santos por quase trinta anos, o padre Scipião foi nomeado, em 25 de junho de 1885, para o cargo de vigário da Igreja de Nossa Senhora da Conceição (hoje Catedral de Nossa Senhora da Conceição), tomando posse no dia seguinte. 

Em 1889, uma epidemia de febre amarela atingiu a cidade. O cônego Scipião teve grande destaque no socorro e assistência aos doentes. Devotado aos carentes, ao lado do Dr. Alberto Sarmento, fundaram a Sociedade Protetora dos Pobres, cuja primeira reunião foi realizada em 7 de abril de 1889. Em suas memórias, por ocasião do 50º aniversário de fundação do Seminário de São Paulo, em 1906, o monsenhor Manoel Vicente da Silva assim se refere à atuação do padre Scipião durante a epidemia da febre amarela: “Vi passar a cavalo, conduzindo víveres, um velho sacerdote – o Cônego Junqueira. Admirei o valor do servo de Cristo e meus lábios deixaram partir uma prece do meu coração pelo abnegado pastor que não abandonava seu rebanho. Edificante procedimento deste Padre das priscas e descuradas formações”. 

Em reconhecimento ao trabalho do cônego Scipião, por iniciativa do vereador Dr. Ricardo Gumbleton Daunt, em 1º de julho de 1889, a Câmara Municipal  deu à antiga Rua Vinte e Quatro de Maio o nome de Rua Cônego Scipião. 

O povo também prestou homenagem ao cônego Scipião, mandando pintar o seu retrato a óleo, em tamanho natural, onde vê-se o sacerdote sentado numa cadeira, com roquete e murça. 

Estando em Iguapé, certamente para descanso de seus afazeres, o cônego Scipião deu posse, em 25 de fevereiro de 1891, ao novo pároco Celso César da Cunha que fora nomeado em 16 de outubro de 1890 em substituição ao padre Antônio Carneiro da Silva Braga, que se afastara de suas funções em 13 de setembro de 1890 e veio a falecer em 1º de março de 1891. Junto com o padre Celso, o cônego Scipião celebrou, no dia 2 de março, a missa de réquiem em homenagem ao cônego Braga. 

Alguns anos depois, o cônego Scipião trocou com o cônego Nery, assumindo como terceiro vigário da Paróquia de Santa Cruz (hoje Basílica de Nossa Senhora do Carmo), em 28 de outubro de 1894. Mas já cansado e doente, em 1897, licenciou-se para tratamento de saúde, assumindo o seu lugar o padre Roberto Landell de Moura. Assim, o cônego Scipião retirou-se para Santos, onde veio a falecer no dia 4 de fevereiro de 1897, aos 71 anos. 

(Texto: Roberto Fortes. Publicado originalmente na “Tribuna de Iguape”, nº 86, março/2008.  Foto: Acervo do Museu Municipal de Miracatu.Imagem

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