Danton Gomes

Publicado 12/06/2014 por lcs2308
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O grande repórter policial A Rua Danton Gomes, na Vila Brandina, em Campinas, leva o nome do repórter policial que morreu em 23 de março de 1977. O velório do jornalista foi concorrido. Centenas de pessoas acompanharam o cortejo, com missa de corpo presente e caixão levado pelo Corpo de Bombeiros ao Cemitério da Saudade. As minúcias de um fato e a insistência em divulgar a realidade de um crime marcaram a personalidade do repórter, que vivia o jornalismo nas 24 horas do dia. Era tanta dedicação que o coração não aguentou: com pouco mais de 60 anos, ele sofreu um enfarte fulminante. Na época, os repórteres não tinham vida própria (será que hoje têm?). O chamado jornalismo romântico os consumia e sobrava pouco tempo para a família. Danton casou-se duas vezes e teve cinco filhos. Não o conheci, mas as fotos dele ainda jovem mostram um homem boa-pinta, de imensos olhos verdes, que brilhavam ainda mais quando falava da profissão, como me conta por e-mail a sobrinha Regina Lúcia Felix. “Veio de uma família grande. Dos sete filhos, era o mais velho. Tudo o que ele fez, sempre foi ligado ao jornalismo. Gostava de ir atrás de histórias complicadas e buscar as explicações. Quando estava com a família e os amigos, conversando sobre algum caso em que trabalhou, tinha a atenção e a admiração de todos. Era cativante”, lembra Regina. Ela diz que não conheceu a filha do primeiro casamento de Danton. Depois, ele teve mais quatro filhos – um morreu em acidente e com os outros não teve mais contato. A mãe de Regina era irmã de Danton. “Ele vibrava com tudo”, afirma a sobrinha, que acompanhou muitas das histórias que o tio cobriu como repórter policial. Danton também ficou muito conhecido em Campinas pelo programa que fazia na Rádio Cultura. Estava sempre com um bloquinho na mão e anotava tudo, inclusive as sugestões da população. Arrojado e perspicaz “O homem trabalhou a via inteira em jornal e rádio. Fez escola, não copiou, foi autêntico, correto, honesto, como homem e como profissional. Profissional zeloso, jornalista arrojado, perspicaz, inteligente, abriu horizontes. Pesquisava, anotava, fazia perícias, dava ao leitor a informação correta e eficaz (…). Danton Gomes foi sepultado com a glória de ter sido o melhor repórter policial da história de Campinas nos últimos tempos, e com o respeito que toda a população da cidade demonstrou pelo homem de imprensa.” Crônica de João Ballesteros Neto, publicada em 25/3/1977, no Diário do Povo Emoção na despedida A Rádio Cultura ficou de luto quando Danton Gomes morreu. Na voz do então vice-presidente, Paulo Pedroso, um longo texto de despedida foi lido, com emoção, para os ouvintes que tanto admiravam o trabalho do jornalista. As laudas foram enviadas à família. Confira alguns trechos: _Repórter sim. Mil vezes repórter. Toda uma geração ligada ao jornalismo contemporâneo há de lembrar suas grandes e inesquecíveis reportagens. Um repórter que, no cotidiano dos fatos tristes, sabia levar e transmitir a sua mensagem de fé e esperança no ser humano. _O mundo é dividido entre pioneiros e rotineiros. Pois o repórter Danton Gomes foi um pioneiro. _E, por paradoxal que possa parecer, no desempenho de suas atividades, mostrando o lado triste e angustiante da vida, Danton Gomes sabia ser otimista. Ao revelar as tragédias que envolviam uma cidade e os lamentáveis acontecimentos que traumatizaram um povo, o repórter mostrava que ainda havia esperança, ressaltando que a lei, sempre e sempre, derrotava os criminosos. Furo jornalístico Das muitas histórias que cobriu, uma é lembrada pela família: o caso de Geny Gleiser, uma jovem de 17 anos, judia romena, que foi para São Paulo com o pai, jornalista no Rio de Janeiro e que depois se transferiu para Campinas. Chegou em 1932, com a irmã Berta. Detestava o fascismo, o que a levou a participar de um movimento de jovens que, como ela, defendiam a paz e repudiavam a opressão. A imprensa limitava-se a dizer que ela estava em liberdade, até que Danton Gomes descobriu que Geny estava recolhida numa prisão de mulheres na Avenida Andrade Neves. Burlando a vigilância policial, ele se aproximou da janela da prisão e conversou com a judia. No dia seguinte, no Correio Popular, um “furo” de Danton deixou a polícia em situação delicada. Mas o futuro de Geny já estava traçado: em 21 de agosto de 1935, foi levada para Santos e ali embarcou no navio Auragny, que deveria deixá-la na Romênia.

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Abaixo uma cobertura da matéria de Danton Gomes: Há 50 anos, psicopata apavorava Campinas! Em 1962, Campinas não falava de outra coisa. O jornal era disputado nas bancas. O leitor queria notícias sobre o Bandido Mascarado, sujeito maluco que atacava casais. Os crimes aconteciam principalmente em novos loteamentos da época (Jardim das Paineiras, Campos Elíseos). Havia iluminação precária, poucas casas, mato por todo lado. Locais onde os jovens paravam o carro para namorar. E cenário perfeito para a ação do marginal. O homem usava um capuz preto. Carregava uma lanterna e um revólver. Abordava as vítimas, atirava no rapaz, violentava a moça. Na época, os investigadores fizeram campanas, articularam ações ousadas Interior afora, convocaram entrevistas coletivas espetaculares e anunciaram prisões. Mas hoje, 50 anos depois, não se pode afirmar quem foi psicopata. Quem viveu aquele tempo lembra que a cidade estava em pânico. O advogado Jorge Alves Lima (ex-procurador jurídico da Prefeitura) era um jovem estudante de Direito na época. Hoje, ele gargalha de lembrar da noite em que assistiu Psicose. Justamente na época em que o mascarado apavorava. Lima deixou o Cine Ouro Verde e voltou andando para casa. Passou pela Barão de Jaguara deserta, atravessou o Largo do Rosário. Tremia em cada corredor escuro e portão no caminho de volta à pensão. “A gente achava que o bandido podia estar em qualquer canto. Era o drama do Hitchcock na vida real”, fala. O advogado, hoje com 75 anos de idade, lembra de um velho amigo, o investigador Joaquim Campos Nogueira, que se tornou delegado e não fazia outra coisa: levantava e dormia procurando pistas que levassem ao assassino. Lima conversa com a reportagem rodeado de antigos recortes de jornal, que traziam ilustrações sobre a ação do mascarado e imagens das perícias policiais no carro das vítimas . A série de crimes teve três vítimas fatais. Os rapazes foram assassinados com tiros na cabeça, em casos que seguiam o mesmo roteiro mórbido. As vítimas foram Pedro Furlan Filho (mecânico de automóveis), Antônio Eliseu Carlini (comerciante), Orestes Carlos Segálio (filho de Orestes Segálio, político de grande popularidade na época), e feridos, Antônio Macari, Américo Tasso, além de Zenaíde Mara Giordano. As ocorrências aconteceram nos anos de 1961 e 1962. Mas a ação do bandido começou antes. No final da década anterior, as reportagens já tratavam de rapazes feridos e de moças abusadas. Não se sabe, hoje, o quanto havia de sensacionalismo nas edições. Nem se pode dizer se eram sinceras as entrevistas dadas aos repórteres. Há depoimentos de mulheres informando que o mascarado, nas abordagens, dizia ser um marido traído, e que matava para se vingar. Os jornais também deram espaço, por exemplo, para uma namorada rejeitada que acusou o próprio amante (um motorista chamado Geraldo) de ser o bandido mascarado, dando detalhes de seu cotidiano doentio. Os próprios policiais convocaram a mídia e chegaram a afirmar que o mascarado seria investigador chamado Waldomiro, dizendo que o suspeito nunca era preso porque conhecia todas as ações planejadas para prendê-lo. Os episódios venderam muito jornal e viraram assunto obrigatório nas rodas. Mas nunca se provou nada contra os suspeitos. Em 1979, o polêmico Sérgio Paranhos Fleury (então delegado do Departamento Estadual de Investigações Criminais, o Deic) chamou para si os holofotes e anunciou a prisão, em São José do Rio Preto, do farmacêutico Fábio Garcia Macedo (campineiro que havia deixado a cidade ainda em 1963). Ele foi detido quando contratou um jagunço para matar seu próprio sogro. O acusado teria confessado ter sido o bandido mascarado do passado. A imprensa deu o caso como encerrado, mas a notícia acabou perdendo a credibilidade. O farmacêutico, se viu depois, era um doido. Sofria amnésias, surtos, rompantes de choro convulsivo. Dava respostas diferentes cada vez que era questionado.Macedo, em tese, foi usado de bode expiatório para encerrar um caso sem solução. Nuances políticas se seguiram. Correu pela cidade o boato de que o bandido mascarado tinha sido Xandão, filho do respeitado médico Manoel Marcondes Machado Filho, o dr. “Lito”, que clinicou em Campinas por seis décadas e até foi prefeito por nove meses, em 1947, indicado pelo governo estadual. As acusações contra o rapaz (conhecido bon vivant na época) foram interpretadas em seguida como meras campanhas difamatórias orquestradas por adversários políticos do pai famoso. Nunca se provou nada contra o jovem. Hoje, 50 anos depois, todos os suspeitos morreram, assim como os delegados da época e repórteres que cobriram o caso. Para as novas gerações, o tema é quase uma lenda. Um caso que nunca teve, e nunca terá explicação convincente. Extraído da coluna Baú de Histórias do Jornal Correio Popular edição de 14/11/2013 Rogério Verzignasse

Extraído da coluna “Baú de Histórias” do Jornal Correio Popular, edição de 14/11/2013.

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4 comentários em “Danton Gomes

  • Eu era criança e lembro que em casa o pai e a mãe sempre ouvia o Danton Gomes na Rádio Cultura, a gente não quis acreditar quando o Danton Gomes morreu, na rádio tocou música o dia todo. Lembro que ele falava também dos ladrão Cafuringa, Cara de Cavalo, Diabo Loiro e do Eloi Japonês, naquele tempo nós moravamos perto do Bar do Scabello, perto do Rodovia que ligava Campinas ao Aeroporto. Tempos de saudades, a gente era tão infantil. O rádio era uma emoção.

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