Igreja N. Sra. do Rosário – Campinas

                                                                              Maria Lúcia de Souza Rangel Ricci

“A ideia da fundação da igreja de Nossa Senhora do Rosário de Campinas, segundo o cronista Leopoldo Amaral, foi pensada por sua população logo após Campinas ter sido elevada à condição de Vila (1797).
A concretização desta ideia ocorreu anos depois (1817), por iniciativa do padre Antônio Joaquim Teixeira. Grandes festividades marcaram a colocação da imagem do Rosário.
Estava a igreja situada defronte a uma praça que levou seu nome: Praça do Rosário, inaugurada a 15 de novembro de 1895 e, a 31 de agosto de 1933, passou o já chamado Largo do Rosário (atual Praça Visconde de Indaiatuba) por remodelação.  Foi a igreja que definiu as origens deste espaço.
Os primeiros templos edificados na cidade por não terem seus responsáveis conhecimento e técnica apurada para construções de grandes edifícios, acrescido das nefandas ocorrências advindas de intempéries, deram ensejo para que ele se arruinassem em curto espaço de tempo.   E, foi a igreja do Rosário, ao longo de sua existência, uma das que mais sofreu reformas/modificações; a primeira delas ocorreu no ano de 1851.
No entanto, apesar das alterações, ela não obedeceu a nenhuma linha arquitetônica, apesar de sua pintura haver sido efetuada por José da Silva Manso, então considerado um dos melhores pintores paulistas da época.
Ao observarmos as raras imagens que restaram desta igreja no ano de 1871, podemos notar que suas duas torres eram as responsáveis por seu adorno; mas apesar da singeleza do templo, não deixava de ostentar uma elegante fachada/frontispício.   Era imponente sua entrada principal aonde havia um átrio de “lajes de Itu”, com degraus à sua volta e da mesma pedra.
Em 1887, suas torres tiveram que ser demolidas por medida de segurança, uma vez que estavam em estado precário, colocando em risco a vida dos fiéis.   Somente em 1928 é que foi construída uma nova torre.
Inúmeras foram as doações feitas em testamento a esta igreja para as necessárias obras/reparos que se fossem fazendo necessárias, bem assim esmolas eram ofertadas pela população que a frequentou ao longo dos anos.   Para poder apurar maiores quantias para as constantes reformas, foi ainda usado o recurso de loterias e subscrições na cidade, conforme o salientado por alguns cronistas de Campinas, como foi o caso, entre outros, de Rafael Duarte e Ricardo Gumbleton Daunt.   Desta maneira a igreja de Nossa Senhora do Rosário foi formando seu patrimônio constituído de alfaias, imagens e alguns objetos outros de valor.
Embora os africanos e seus descendentes não tivessem podido continuar na Irmandade do Rosário de Campinas, pois, foram dela expulsos, buscaram um outro local na cidade para se instalarem, constituindo uma nova confraria que foi a de São Benedito.   Todavia, mesmo perdendo o controle da Irmandade do Rosário, continuaram a frequentar o largo e as escadarias da igreja.   Nestes locais realizavam suas manifestações tanto de caráter religioso quanto profano, aonde foram amiúdes as congadas e batuques, além da recriação cultural ocorrida a partir da mescla com outras práticas culturais.
Foi significativo também que as antigas cavalhadas havidas em Campinas foram realizadas em frente a este templo, até porque a Praça do Rosário era a maior da cidade nos idos de 1846.
Por duas vezes serviu a igreja Nossa Senhora do Rosário de Matriz: a primeira, de 1846 a 1852 e, a segunda, de 1870 (ocasião em que foi dividida em duas a antiga Paróquia da Conceição de Campinas) até 1833, quando ocorreu a inauguração da Matriz Nova (Catedral).
Enquanto existiu a igreja do Rosário, nunca deixou de realizar anualmente a devoção ao mês do rosário, ocasião em que os fiéis lotavam o templo.
O Largo do Rosário em 1888 era o local ainda onde se realizavam as “feiras-livres” que desapareceram com a construção do Jardim do Rosário, inaugurado em 1895.   Havia neste espaço frondoso arvoredo, bancos e um artístico chafariz metálico (atualmente se encontra para onde foi transferido – no Largo do Pará).
O “Plano de Melhoramentos Urbanos” do engenheiro Prestes Maia para a reforma do Largo do Rosário, previa já a demolição da igreja.   A 8 de agosto de 1934, este Largo ganhou o formato de Praça Cívica, conforme podemos observar na ilustração aqui inserida, onde foram instaladas elegantes luminárias e o monumento em homenagem a Campos Sales.   Nota-se também a movimentação neste espaço onde se pode observar a presença dos “automóveis” com capotas de lona.   Geralmente estes carros eram usados para o transporte de poucos moradores que podiam se dar ao luxo de alugá-los para o trajeto de suas casas à igreja e vice-versa.
É bem provável que a foto se refira a um dia de festa e/ou domingo quando era usual a presença do “lambe-lambe” para fotografar os interessados.
Lembro ainda que o monumento à Campos Salles, visto à direita da ilustração, substituiu o arvoredo até então existente neste espaço (anos depois foi ele transferido para as imediações da então chamada Estação da Companhia Paulista, ou seja, no início da atual Avenida Campos Salles).
Mas, a igreja de Nossa Senhora do Rosário de Campinas estava mesmo fadada a desaparecer.   Em nome da modernidade, em decorrência do novo traçado da área central da cidade, elaborado em 1934, ela foi envolvida, uma vez que estaria então no “meio da rua”, representando, assim, um obstáculo aos fluxos previstos.
Em 1956, foi ela definitivamente derrubada e não apenas pelo plano urbanístico da cidade, mas também em decorrência dos forros da nave central e laterais estarem em péssimo estado, com o madeiramento atacado pelo cupim, trincas que comprometiam a estabilidade dos arcos da cúpula central, conforme atestou o laudo emitido pelos engenheiros do então Departamento de Obras e Viação da Prefeitura Municipal de Campinas.
Com esta demolição houve o alargamento da rua do Rosário (atual avenida Francisco Glycério).
A repercussão deste fato foi muito negativa à população campineira; a imprensa local por bom espaço de tempo comentou em suas páginas a comoção gerada na coletividade, mas, o monumento de pedra (como também era chamado) erguido no coração da cidade, veio abaixo mesmo!
Alguns painéis desta igreja foram conservados na nova igreja do Rosário construída à Avenida Francisco José de Camargo Andrade (Castelo/Jardim Chapadão) e no Museu Arquidiocesano de Campinas.
O novo templo é de estilo neo-românico em sua ornamentação aonde se salientam, apenas como um exemplo, as envasaduras com arco pleno.
E, no antigo espaço e entorno da tradicional igreja do Rosário, se seguiram a verticalização, demolições várias, que acabaram por fazer desaparecer momentos marcantes da história campineira.   Todavia, a tradição de ser este espaço o ponto de encontro e palco de manifestações populares e atividades sociais se mantém até nossos dias!
A velha igreja do Rosário (atual praça Guilherme de Almeida, que nada mais é do que a continuação do largo do Rosário) ficou na memória da gente campineira.   Relembro neste momento algo que vivenciei em minha juventude, entre muitos outros acontecimentos ocorridos dentro e no entorno desta igreja, aonde seu ambiente calmo, sempre com pouca luminosidade, as senhoras vestidas de roupas escuras, mangas longas e véus à cabeça, rezavam o terço em vozes compassadas em diferentes momentos do dia, envoltas pelo aroma do incenso que pairava pelo ar.   Contrastando a este ambiente, nós adolescentes, com muitos risos francos, sempre alvoroçados, contávamos uns aos outros as novidades da véspera, desfrutando das ilusões próprias da idade, enquanto ansiosos aguardávamos no abrigo dos bondes, fronteiriço ao templo, a chegada do “bonde nove – Botafogo” para que rapidamente pudéssemos chegar ao nosso “Culto à Ciência”.
E, não raras vezes, olhavamos surpresas aquelas senhoras adentrando ou saindo da igreja, circunspetas e muitas a nos olharem de forma severa pela algazarra que fazíamos… Quando acontecia, e isso sempre ocorria, pois, Campinas era ainda uma pacata cidade nos idos da década dos 1950, encontrarmos conhecidas de nossas avós e mães, que horror!   O “disse-me-disse” ocorria mesmo e ai de nós quando retornavamos do colégio!
Também pudera!   E creio que bem por isso era o Largo do Rosário conhecido por ser o “caldeirão do diabo”, alcunha, aliás, que perdurou por muito tempo, uma vez que os “mexericos” rolavam a solta neste espaço, principalmente por parte dos homens que lá permaneciam para engraxar seus sapatos, comprarem os jornais vendidos por muitos moleques, saberem o melhor palpite para apostar nos cavalinhos, e tal e tal…  
Mas, o significativo foi que na memória do povo permaneceu a igreja e o nome “Largo do Rosário”, carinhosamente preservado, ao lado da tradição de continuar a ser tal espaço o ponto de encontro e local de diversas manifestações populares, eventos e atividades sociais várias.”

 * Algumas fotos aqui inseridas são do acervo do fotógrafo Gilberto de Biasi.

Igreja do Rosário - interior
Interior.

 

Igreja do Rosário (2)
Acervo Washington Marcondes Ferreira Neto.

 

Igreja do Rosário (3)
Na década de 40.

 

Igreja do Rosário (5)
Na década de 40.
Igreja do Rosário em 1956. Foto Gilberto De Biasi.
Demolição, em 1956. Coleção: “Aristides Pedro da Silva (V8).”

 

Igreja do Rosário, em 1952.
Igreja do Rosário, em 1952. Coleção: Aristides Pedro da Silva (V8)”

 

Igreja do Rosário
Em 1952

 

Largo do Rosário (2)
Acervo Washington Marcondes Ferreira Neto.

 

Largo do Rosário, decada de 50.
Foto: Gilberto de Biasi.

 

Largo do Rosário - 1936
Insira uma legenda
Largo do Rosário, palácio da Justiça em fase final de construção - década de 1950
Foto: Gilberto de Biasi.

 

Vista - 1952
Em 1952

 

Vista 1952
Foto: Gilberto de Biasi.

 

Vista aérea - anos 60. João Balan
Foto: João Balan!
Vista aérea - década de 1950. Foto De Biasi
Foto: Gilberto de Biasi.
Largo do Rosário
Foto: Gilberto de Biasi.
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