Coluna Bau de Histórias

Casa é mosaico histórico sobre Campinas

Imóvel foi construído com trilhos do bonde, paralelepípedos de 200 anos, janelões e portas de sobrados demolidos

 

Rogério Verzignasse

Quem caminha por aquela rua sossegada do Parque das Universidades, em Campinas, fica surpreso ao notar a casa charmosa, com parreira no jardim e detalhes arquitetônicos marcantes. Há colunas, arcos medievais e ornamentos de cimento, como aqueles em forma de pirâmide colocados sobre as colunas que sustentam o portão. Pouca gente sabe, no entanto, que o imóvel é um imenso mosaico com pedacinhos da história da cidade.

Dormentes e trilhos do bonde viraram suporte para trepadeiras. As portas da sala são as mesmas que um dia estavam na entrada da capela de uma fazenda cafeeira centenária. No quintal, bem diante de um altar de pedra, estão dispostos bancos de concreto, feitos com lascas da plataforma original da Estação Guanabara.

Os tijolos de barro e as janelas de ferro fundido foram encontrados em prédios demolidos. O portão da frente, por exemplo, era da casa de Margot Proença (mãe da atriz Maitê). Os tijolos imensos do hall, à mostra, eram originalmente da residência de Otília Foster, uma das primeiras professoras campineiras de educação física.

Naquela casa mora o empresário Fernando Antônio Caleffi. Em um terreno de 400 metros quadrados, a área construída já passa dos 300. A obra começou a ser erguida há quase uma década. E nunca vai ficar pronta.

O empresário vasculha demolições e depósitos de entulho. Leva embora tudo o que a cidade despreza. Os amigos, entusiasmados com a ideia, trazem de toda parte ferragens, caibros, tijolos, correntes, sinos. E Caleffi encontra lugar para tudo que chega.

Ponto de encontro

A casa, numa profusão de estilos, foi apelidada pela turma de “castelinho medieval”. Virou um ponto de encontro para saraus. “Ao redor de uma pizza, eu e meus amigos cantamos, recitamos, declamamos”, diverte-se.

O muro do jardim e as alamedas laterais da construção foram feitos com paralelepípedos que serviram para pavimentar ruas como a Barão de Jaguara. “Essas pedras lisas, gastas pelo tempo, foram pisadas por escravos, prefeitos, fazendeiros, juízes, padres, meretrizes, artistas”, fala. “Cada ponto da cidade é cheio de almas.”

Na parede entre os quartos, no piso superior, estão tijolos assinalados nas cavas com as letras que representam as olarias que os fabricaram. Entre as peças, a que mais chama a atenção é uma feita pela cerâmica da família Sampainho. O tijolo é decorado com o brasão da família imperial.

O piso da casa inteira, todo em mosaico com desenhos irregulares, é feito com cacos que foram sendo recolhidos pacientemente em marmorarias.

“Saga humana”

Caleffi, de 53 anos, nasceu em Jundiaí e se mudou para Campina s em 1975. Ele não gosta de ser considerado um “colecionador de velharias”. Ele prefere se apresentar como um “estudioso da saga humana”.

O pai de Fernando, o “seo” José Caleffi, de respeitáveis 87 anos, se ajeita em um quarto arrumadinho, nos fundos da construção. O janelão fica de frente para o nicho onde está a imagem de Nossa Senhora do Monte Serrat.

Era a santa de louvor da sua mulher, dona Valdomira, que já se foi deste mundo. “Aqui no pátio, a gente ora em novenas e missas ocasionais”, diz. “É emocionante celebrar a amizade.”

‘Castelinho’ recupera o que a cidade despreza

O empresário Fernando Caleffi confessa que fica triste cada vez que, passeando pelo Centro, vê tratores abrindo valas para recuperar a tubulação e amontoando os paralelepípedos centenários. Aqueles blocos desprezados, diz, foram marcados por ferraduras, cascos e sapatos ao longo de 150, 200 anos. “Em nome do progresso, a gente ignora por onde andaram e o que fizeram nossos ancestrais”, afirma.

Ele acha importante o esforço para o tombamento de imóveis históricos. Mas considera que, além de assinarem papéis, os historiadores deviam sugerir formas para preservar o patrimônio. “De nada adianta tombar uma estação, por exemplo, e a deixá-la lá esquecida, se deteriorando a cada dia”, fala. “É preciso que os prédios tenham destinação, sejam revitalizados.”

Caleffi diz que esse é o seu objetivo com o “castelinho medieval”. O que a cidade considerou lixo, diz, virou paredes e alamedas.

Família

Aquele é, também, um espaço p ara preservar a memória de sua própria gente. Dentro da casa, ornamentos decorativos contam a saga dos Caleffi.

Madeiras velhas viraram portas para os cômodos. E cada uma dela foi entalhada no formão. Uma tem a imagem da margarida (flor preferida pela mãe Valdomira), outra tem o cacho de uva (das parreiras que o pai plantava em Jundiaí). “Na minha opinião, nossos filhos e netos precisam sentir orgulho do que foram seus antepassados”, afirma. (RV/AAN)

SAIBA MAIS 

As pessoas interessadas em conversar sobre o “castelinho medieval” podem entrar em contato com Fernando Antônio Caleffi pelo telefone
(19) 3256-3365.

 

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