Vó Nina

Publicado 08/07/2014 por lcs2308

Laudelina de Campos Mello, mulher negra, nasceu no município mineiro de Poços de Caldas, em 12 de outubro de 1904. Seus pais eram negros alforriados pela Lei do ventre Livre, em 1871.

  Aos sete anos de idade, começou a trabalhar como empregada doméstica, aos 12 anos, perdeu o pai de forma trágica. Este trabalhava no corte de madeira, no Paraná, e foi atingido por uma tora que havia sido cortada por um de seus irmãos. Laudelina teve então que abandonar os estudos, ainda na escola primária, para assumir o cuidado dos cinco irmãos menores, para que sua mãe fosse trabalhar em um hotel. Adolescente, auxiliava a mãe na confecção de doces e compotas caseiras, para serem vendidos na cidade. Aos 16 anos deu início à sua atuação em organizações de cunho cultural, sendo eleita presidenta do Clube 13 de Maio, agremiação que promovia atividades recreativas e políticas entre os negros de sua cidade.

Aos 18 anos, Laudelina mudou-se para São Paulo, onde se casou, mudando-se para Santos em 1924. 

No início da década de vinte, Laudelina mudou-se para São Paulo e, logo em seguida, para Santos, onde se casou e teve seu primeiro filho. Entre os anos de 1928 a 1934 morou novamente em São Paulo, onde teve sua filha, que morreu pouco tempo depois de seu nascimento. Separada do marido, mudou-se para Campinas na década de 40, onde participou de movimentos e organizações sindicais e culturais ligadas às causas negra, operária e da mulher.


Em 1936, com 32 anos, criou uma Associação das Empregadas Domésticas, fundada simultaneamente em São Paulo e Santos, e fechada em 1942, quando atividades políticas foram proibidas em função do Estado Novo. Sua atuação foi exemplo para que fossem criadas associações no Rio de Janeiro em 1962 e em São Paulo em 1963. Em Campinas, a entidade, que havia sido extinta em 1968 por conflitos internos, foi retomada em 1982 e, em 1988, foi transformada em Sindicato dos Trabalhadores Domésticos. 

Logo após a morte de seu marido, Dona Nina, como era conhecida, viveu em Mogi das Cruzes, no hotel de propriedade da mãe da escritora Hilda Hist e posteriormente em Campinas, onde teve dificuldade para conseguir colocação no mercado de trabalho devido ao forte preconceito racial.

Sua atuação em Campinas foi marcada por uma luta incansável pelos direitos dos trabalhadores domésticos e contra o preconceito e a exploração. Denunciou que as empregadas negras eram preteridas, protestando contra os anúncios racistas do jornal Correio Popular, debatendo com o jornalista Bráulio Mendes Nogueira, que passou a apóia-la. Integrou-se ao movimento negro e promoveu ações taiscomo: uma manifestação onde reuniu 200 trabalhadoras domésticas, nos anos 60, e a colaboração na fundação da creche na Vila Castelo Branco.

Durante toda a sua vida, Dona Laudelina, ou Vó Nina como era conhecida, participou ativamente de diversas lutas, tendo sido militante da Frente Negra Brasileira e do Partido Comunista e participaante como enfermeira da II Guerra Mundial. Por ter tido contato intenso com várias vertentes do Movimento Negro, do movimento sindical e feminista, pôde perceber os diversos níveis de consciência diluídos e dispersos na realidade da população negra, operária e feminina, que, apesar de suas divergências, possuíam princípios reivindicatórios comuns: o acesso do negro, do pobre e da mulher aos seus direitos mais básicos de cidadão: o direito ao trabalho, à dignidade e à cultura.

Em Campinas, além de participar da criação da associação das empregadas domésticas local, fundada em 1961 e transformada em sindicato no ano de 1988, Dona Laudelina organizou diversos eventos culturais e políticos, como o Concurso da Beleza Negra, a Festa das Nações e o Jantar das Yabás, que ainda hoje é realizado por suas seguidoras da Casa Laudelina de Campos Mello como forma de promover e preservar a cultura afro-brasileira e de homenagear, através dessa grande mulher, todas as mulheres negras de nossa cidade e de nosso país.

“A minha mãe dizia pra mim que eu deveria ter nascido homem, porque já nasci com aquela garra, com aquela coisa que tudo pra mim eu não deixava passar, eu queria enfrentar”
Laudelina de Campos Mello

 

 Morreu em 22 de maio de 1991.

Adriana Barão

Jornalista, Antropóloga, Mestre em Artes e doutoranda em Educação (UNICAMP)
Coordenadora do Museu da Cidade (Secretaria Municipal de Cultura, Esportes e Turismo)
adrianabarao@bol.com.br

  

Na foto ao lado, Dona Laudelina Campos Mello ao lado do cantor Jair Rodrigues e uma das vencedoras dos inúmeros bailes destinados à comunidade negra de Campinas.

Na década de 50, uma espécie de apartheid imperava em Campinas. Negros eram impedidos de entrar em alguns dos principais clubes da cidade, andar em praças e na maioria da vezes, quando entrava no bonde senhoras brancas se levantavam. Dona Laudelina de Campos Mello utilizou da sua teimosia para conseguir a realização do 1° Concurso da Pérola Negra, visando elevar a autoestima da mulher negra. Embora possuía uma formação escolar baixa, Dona Laudelina era extremamente inteligente e articulada. Lutou, lutou e conseguiu que o evento fosse realizado. Tanto que, para descrédito, o baile aconteceu e chamou atenção da revista ‘O Cruzeiro’, principal publicação daquela época. Segue um trecho da reportagem:

“Pela primeira vez no Brasil, a sociedade negra de uma cidade realizou um baile de gala e escolheu a sua rainha no ambiente suntuoso do Teatro Municipal Carlos Gomes, congraçando-se numa festa que alcançou o mais amplo sucesso. Foi em Campinas (no estado de São Paulo), que o jornal “Diário do Povo” resolveu concretizar um dos velhos sonhos da numerosa família negra organizando e levando a efeito o concurso que escolheria a Pérola Negra de Campinas. Bastou que a ideia fosse anunciada para receber o integral apoio da Associação Cultural dos Negros do Estado de São Paulo” (O Cruzeiro,1957).
Extraído do livro-reportagem ‘Negros Heróis: histórias que não estão no gibi’. 432294

 

A Nina no VI Congresso Nacional de Empregadas Domésticas, em 1989.

A Nina no VI Congresso Nacional de Empregadas Domésticas, em 1989.

 

 

 

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