As andorinhas de Campinas

AS ANDORINHAS DE CAMPINAS
(Rui Barbosa)

“Pelo límpido azul, já sem sol, antes que se lhe esvaia de todo o ouro de seus átomos de luz, mas quando o crepúsculo entra a desmaiar do seu brilho a safira celeste, um ponto retinto, perdido nos longes mais remotos, se acentua em negro na cúpula do firmamento, lá bem alto, bem de cima, como se a ponta de uma seta, desfechada perpendicularmente de além, varasse ali a redondeza anilada.

Era um, e logo após já são muitos, já vêm surgindo inumeráveis, já parecem infinitos, já se cruzam e recruzam, já se encontram e circulam, já se condensam e escurecem.

Eram um grupo e já formam um bando, já vêm crescendo em longas revoadas, já refervem em enxames e enxames, já se estendem em uma vasta nuvem agitada. Toldaram o céu, encheram o ar, vêm-nos ondeando sobre as cabeças. Agora, afinal, como os movimentos de uma grande vaga sombria, pontuada de branco, a librar-se entre a terra e a imensidade, baixa a massa inquieta, rumorejando, oscilando, flutuando, rasga-se na coroa das palmeiras, açoita os fios telegráficos, resvala pelos tetos do casario, e, ao cabo, arfando e remoinhando, turbilhonando e restrugindo com o estrépito de uma cascata argentina, de uma cachoeira de cristais que se despedaçam, chilreada imensa de vozes e grasnidos às dezenas de milhares, pendem, mergulham e desaparecem, numa imensa curva borbulhante, por sobre o largo telheiro abandonado, que essa aérea multidão erradia elegeu entre nós para abrigo do seu descanso nas cálidas noites de verão.”

Na rota das andorinhas

Katia Nunes

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Andorinhas, no Chapadão
Andorinhas, no Chapadão
Andorinhas, no Centro de Campinas
Andorinhas, no Centro de Campinas

As calçadas de Campinas (ainda) têm andorinhas. Localizamos algumas delas e fizemos um passeio nostálgico pela história da ave-símbolo da cidade.
A Campinas de 230 anos é famosa por seu pólo tecnológico, pelas universidades, pela área médica e pelo centro de compras, com seus grandes shopping centers. Mas, no início do século 20, ficou conhecida no Brasil como a “Cidade das Andorinhas” em virtude do espetáculo proporcionado pelas pequenas aves migratórias que, nos meses quentes do ano, cortavam o céu de Campinas em tão grande número que até faziam sombra quando voavam juntas.

A fama nacional foi reconhecida depois que Rui Barbosa visitou Campinas em 1914 e assistiu aos voos rasantes das aves no extinto Mercado das Hortaliças, onde hoje é o Largo das Andorinhas, no Centro. Em uma só tarde, um pesquisador da época chegou a estimar 30 mil andorinhas nos telhados.
As Andorinhas de Campinas, 1914
Membro fundador da Academia Brasileira de Letras, Rui Barbosa escreveu a crônica “As Andorinhas de Campinas”, que foi lida no Centro de Ciências, Letras e Artes, na ocasião da visita. “O texto correu o Brasil e muitos campineiros sabiam trechos de cor”, lembra Gilberto Prado, 80 anos, conselheiro curador da Federação das Entidades Assistenciais de Campinas (Feac).

Referências a céu aberto

Pouco se vêem as andorinhas hoje em dia em Campinas. As gerações que perderam o espetáculo das aves, que ocorria todos os anos, do começo do século até a década de 50, ficaram apenas com as homenagens feitas aos pássaros, como as calçadas de mosaico português com desenhos de andorinhas voando, a pintura dos ônibus coletivos e táxis, o Largo das Andorinhas, que recebeu este nome em 1945, o Hotel Fazenda e Golf Solar das Andorinhas e o monumento que representa um grupo de andorinhas em pleno voo, do escultor Lélio Coluccini, instalado em 1957, diante do Museu de Arte Contemporânea de Campinas.

Das referências à ave-símbolo, as calçadas são as menos observadas pelos campineiros, embora tenham marcado o desenvolvimento dos principais bairros da cidade. Elas foram introduzidas em Campinas durante a gestão do prefeito Lauro Péricles Gonçalves, de 1972 a 1976.

“Lancei um decreto para que as novas calçadas trouxessem a imagem do símbolo de Campinas, assim como estava ocorrendo no Rio de Janeiro, com as ondas de Copacabana e com o desenho do Estado de São Paulo na capital paulista. Minha intenção foi a de estimular a população a valorizar o aspecto cultural e folclórico da cidade”, afirma o ex-prefeito, que também foi o idealizador do monumento ao Bicentenário de Campinas, instalado no Largo das Andorinhas.

Com o decreto da Prefeitura, a Pedramista Calçamentos, que atua em Campinas há 30 anos, teve de criar moldes de ferro com o formato das andorinhas. “A calçada pronta dá a impressão de que a andorinha está voando. Ela está sempre com o bico voltado para a rua, como se estivesse saindo do telhado da casa para seu passeio. Quisemos criar essa ilusão, porque elas gostam de ficar em telhados em vez de galhos de árvores”, diz o engenheiro da empresa, Marcos Alexandre Grande.
Marcos diz que os bairros que estavam em crescimento na época são os que têm mais mosaicos de andorinhas até hoje, como Guanabara, Cambuí, Taquaral, Jardim Flamboyant, Castelo e Jardim Chapadão.

Cláudio Grande, proprietário da Pedramista, salienta que, hoje, são raros os pedidos de calçadas com andorinhas. “Elas são feitas quando a pessoa quer dar continuidade ao desenho da calçada do vizinho. A moda hoje é mais clean, geralmente só com pedras brancas”, explica.

O proprietário e responsável pela Farmácia Bandeirantes, no Cambuí, Mauro Augusto Marchiori, 71 anos, nem cogitou outro calçamento quando, em 1973, reformou o imóvel onde funciona a farmácia. “Campinas me recebeu de braços abertos. Meus 56 anos de trabalho e sustento ocorreram nesta cidade, assim como a formação da

minha família. Foi um prazer prestar essa homenagem na calçada”, ressalta Mauro, que é paulistano e deu o nome de Bandeirantes ao estabelecimento por ter sido pioneiro no Cambuí, onde se instalou há meio século.
A calçada da Federação das Entidades Assistenciais de Campinas (Feac), no Jardim das Paineiras, que também ostenta as andorinhas no passeio, foi construída numa das gestões de Gilberto Prado como presidente da fundação, em 1976. “Achei importante prestigiar uma lembrança marcante de Campinas”, conta.

Por que elas sumiram?

Gilberto Prado lamenta que “90% da população campineira não saiba por que razão Campinas é chamada de Cidade das Andorinhas. Dos que sabiam, quase todos morreram. Sobraram alguns, como eu”, diz.

Segundo o desenhista e pesquisador de pássaros, Tomas Sigrist, Campinas não é mais rota migratória das andorinhas pelo fato de a cidade ter crescido bastante e substituído sua atividade econômica, antes predominantemente agrícola, com campos, áreas rurais, pastos e terra arada. Sigrist, diz que as andorinhas fugiam do inverno na América do Norte e rumavam para a América do Sul, passando pelo Brasil e pela cidade, entre os meses de setembro e dezembro. “Em Campinas, por haver muitas plantações na época, as andorinhas paravam para se alimentar. Sua maior fonte de comida são os insetos, devorados em pleno voo. As aves eram bem-vindas, principalmente pelos agricultores, que atribuem aos insetos boa parte de seus prejuízos na produção”, explica o pesquisador.

Testemunhas do espetáculo das andorinhas no antigo Mercado das Hortaliças, no entanto, não se conformam com o sumiço das aves, que, pela lembrança, ocorreu de um ano para outro. “Acho que não vieram mais porque o antigo mercado foi pintando e elas estranharam a limpeza e o cheiro de tinta”, suspeita a professora Célia Siqueira Farjallat, 86 anos, colunista do Correio Popular.

Célia, que estudava na Escola Normal, atual Escola Carlos Gomes, que fica em frente ao Largo das Andorinhas, gostava de olhar os pássaros pousando em bandos no prédio do extinto mercado ao entardecer.

O Mercado das Hortaliças, edificado em agosto de 1886 e demolido em abril de 1956, virou Casa das Andorinhas depois de perder seu uso comercial (em 1908, com a inauguração do novo mercado na Praça Corrêa de Melo). Abandonado, o prédio foi “parada” das andorinhas durante longos anos até ser demolido pela administração, quando as aves já não faziam mais dele sua guarida noturna.

O fotógrafo Gilberto de Biasi, 73 anos, registrou em suas lentes o mercado em pleno funcionamento. Do outro lado da rua, mais precisamente do terraço da Escola Carlos Gomes, ele fotografou o prédio, que era todo aberto e não tinha janelas, o que facilitou anos depois a entrada de milhares de andorinhas. “Quando eu tinha uns dez anos, ia para a casa da minha tia, que morava na Rua Benjamin Constant, para que ela me levasse para ver as andorinhas chegando junto com o pôr-do-sol. Elas voltavam para casa em bandos, era um barulho enorme”, lembra.

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