Reminiscências de Campinas

Publicado 12/05/2016 por lcs2308

No primeiro decênio do século 20, Campinas ainda apresentava aquela aparência tradicional e característica das velhas cidades paulistas, traçadas pelos acanhados moldes coloniais. O progresso urbano, notadamente, era muito lento, raras vezes assinalado aqui e ali através de pequenas inovações.

Pelas ruas estreitas e mal calçadas de pedras irregulares, alinhava-se o casario baixo, quase sempre de taipas e pau a pique, construções uniformes, cuja monotonia a largos espaços alterava-se ao encontro de um sobrado austero e patriarcal.

Entre os edifícios mais importantes, notava-se a Matriz Nova (Catedral Metropolitana de N. Sra. da Conceição) e a de Santa Cruz , Estação, Mercado Municipal, Circolo Italiani Uniti (Casa de Saúde), Grupo Escolar Francisco Glycério, os escritórios da Mogyana, Palacete Armbrust, na Rua Barão de Jaguara e alguns chalés de apurado gosto arquitetônico, projetados por Ramos de Azevedo.

A Praça Carlos Gomes, não passava de vasto capinzal cercada de palmeiras imperiais, ainda hoje tão admiradas. Ao lado, a Escola Carlos Gomes, onde foi o Desinfectório Municipal e o antigo Mercado Grande, ou dos Caipiras, como era mais conhecido.

A extensa praça ao lado da Capela de São Benedito, achava-se em completo abandono. Cenário de enforcamentos no tempo da escravidão, possuía fama de mal assombrada, causando arrepios aos cidadãos que necessitavam atravessá-la à noite.

Na parte central, a Praça Visconde de Indaiatuba (Largo do Rosário), ajardinado desde  1895, apresentava-se bem cuidado, com seus canteiros floridos. As copadas árvores e o chafariz de ferro jorrando continuamente, atraíam  os amigos do ócio, frequentadores assíduos dos bancos abrigados à sombra acolhedora das ramagens.

Mais adiante, a Praça Antônio Pompêo de Camargo, onde se levantara o Monumento-túmulo de Carlos Gomes, reformada e arborizada de alecrins, destacando-se  a Matriz Velha (Basílica N. Sra. do Carmo) com a nova frente de duas torres, inauguradas em 1907.

Depois do Jardim Público (Praça Imprensa Fluminense), existiam apenas velhos quintais, chácaras e terrenos baldios, onde o mato crescia livremente, animando-se o bairro algumas vezes com a presença dos afeiçoados do jogo praticado no Frontão, onde foi os escritórios da Limpeza Pública, na Rua Olavo Bilac.

Pelos lados da Ponte Preta, passada a linha férrea, tudo era campo aberto até o Cemitério do Fundão (Saudade). No Guanabara eram poucas as edificações, entre elas destaca-se o Instituto Agronômico e o Lyceu de Artes e Ofícios. Somente a Vila Industrial apresentava sinais evidentes desenvolvimento, mais povoada e com grande número de casas construídas nas proximidades das instalações da Cia. Paulista e oficinas da Mogyana.

O serviço de águas e esgotos era bastante deficiente , interrompendo-se com frequência o fornecimento do precioso líquido com justos protestos da imprensa que, ao lado do povo, clamava contra essas irregularidades. A salvação das donas de casa, nessas horas angustiosas, estava nos chafarizes públicos, situados nos largos da Estação(Praça Marechal Floriano Peixoto), Rosário, Mercado, Praça Rui Barbosa(Largo do Teatro) e Carlos Gomes, onde a água jamais faltava.

Por ocasião dos fortes e inesperados aguaceiros, as enxurradas, convergindo para a Rua Barão de Jaguara, por insuficiência das galerias, subiam pelas calçadas, inundando casas e comércios onde os prejuízos eram inevitáveis.

No setor dos transportes, serviam os bondes de burros da Cia. Campineira de Carris de Ferro, os carros de praça fechados ou abertos, e mais os tílburis, cujos pontos de estacionamento localizavam-se em frente à Estação e no Largo do Rosário.

O ensino  era ministrado por um plêiade de professores competentes e desvelados no desempenho de seu magistério, como: Adalberto Augusto do Nascimento, João Marcílio, Sophia de Oliveira Jacob, Francisca Romana Leite, Paula Pupo de Souza Costa, Arthur Victor de Azevedo Segurado, entre outros, tendo à frente o extraordinário Prof. Christiano Wolkart, deram o melhor de suas vidas em benefício da instrução em nossa terra.

A luz elétrica começava a ser difundida, substituindo pouco a pouco o uso do gás, iniciado em 1875, e os arcaicos lampiões a querosene, muito utilizados entre as famílias humildes. Por esse tempo, a Casa Livro Azul, da família Castro Mendes já era iluminada a eletricidade fornecida por um dínamo com força de 20 ampéres e inaugurado em 1898.

Foi na antiga Casa Barsotti, conhecidíssimo restaurante e bar da época, instalado num prédio da Barão de Jaguara, que se acenderam as primeiras lâmpadas ligadas pela Cia. Campineira de Luz e Força, melhoramento esse inaugurado em 30 de janeiro de 1908.

Ponto de reunião das famílias campineiras, era a Praça Imprensa Fluminense  sempre animada aos domingos, especialmente quando havia retreta da Banda Ítalo-Brasileira. O velho jardim regorgitava de moças e rapazes em alegre convívio, andando pelas alamedas, apreciando a cascata e a gruta de N. Sra. de Lourdes, com suas pontes rústicas, e a ilha das palmeiras, tudo demolido quando se construiu o Parque Infantil, que deu lugar ao Centro de Convivência Cultural.

Particular , interessante e pitoresco eram os mictórios públicos, caixões de ferro colocados nos largos principais. O Theatro São Carlos, que ficava  entre as ruas Costa Aguiar  e Treze de Maio, onde haviam se apresentado celebridades, como a atriz francesa Sarah Bernhardt em 1886, revezava-se com o Rink na apresentação de excelentes companhias nos mais diversos gêneros, sempre acolhidas por um público numeroso e entusiasta.

Entrando no rol dos divertimentos favoritos, o cinematógrafo funcionava diariamente no Rink, no Recreio e no Cine Bijou, este, considerado um dos melhores na época, caprichosamente montado, apresentando ainda como grande atrativo uma orquestra de damas, dirigidas pela violista Eugênia Franc. No dia 30 de outubro de 1910, na Rua Barão de Jaguara, começaram as funções no Cassino Carlos Gomes, pequeno, mas confortável teatro que passava espetáculos diários, abrilhantados por um conjunto musical que grangeou renome pelo valor de seus componentes.

Companhias equestres e acrobáticas, aqui aportavam periodicamente, exibind0-se no Rink, ou levantando seus barracões de lona pelos terrenos baldios.

Em 03 de abril de 1912, a título de experiência acendiam-se 240 lâmpadas de 60 v. correspondentes a primeira seção urbana, abrangendo a Rua Dr. Quirino, Largo São Benedito e a Praça Imprensa Fluminense, e a 24 de junho desse mesmo ano, corria o primeiro bonde elétrico, assinalando duas etapas de grande significado para o progresso.

Uma série de importantes melhoramentos públicos estava ocorrendo. O gradil de ferro do Largo do Rosário fora retirado, calçando-se as alamedas com mosaico português, novidade lançada pelo prefeito Orosimbo Maia, que convidou do Rio de Janeiro alguns calceteiros especializados.

Em 1911, estando à frente do governo municipal o Dr. Heitor Teixeira Penteado, modificou-se a Praça Rui Barbosa(Largo do Teatro) com a remoção do velho chafariz, ajardinando o local, e no dia 07 de setembro de 1913, era entregue ao público a Praça Carlos Gomes, obra que embelezou sobremaneira o antigo largo, batizado com o nome do glorioso maestro.

Procedia-se também à reforma do calçamento e das galerias pluviais, inaugurando-se ainda a monumental entrada do Cemitério da Saudade. Com o aparecimento dos automóveis, os velhos carros de praça foram se aposentando não havendo mais oportunidade para Abílio, Caruso, Porfírio e outros antigos e estimados chaffeur e cocheiros. Os outros, contentavam com os serviços de aluguel que não eram baratos. Aos domingos, uma hora de giro pela cidade, custava seis mil réis.

O Carnaval se não possuía o mesmo brilhantismo dos tempos de Lauro Franco de Andrade, conservava, entretanto, muito de interesse e animação. Era de se ver o corso, subindo e descendo a Rua Barão de Jaguara em duas filas de carros transportando mascarados com ricas e originais fantasias.  As gôndolas de carga da Cia. Tração muito bem enfeitadas de lâmpadas multicores, ocupadas pelos ‘ranchos’ vestidos com originalidade, nos bailes da boêmia, a farra era solta, havia concursos com valiosos prêmios às máscaras mais sugestivas.

Pela Semana Santa, depois do meio-dia de quinta-feira, cessava o tráfego de veículos, não funcionando as casas de diversões. Sexta-feira da Paixão, via-se pelas ruas senhoras e cavalheiros trajando roupa preta. As costureiras e alfaiates não davam conta das encomendas, aprontando trajes especialmente feitos para comemorações dessas datas, vividos num ambiente de recolhimento e profundo sentimento religioso.

Passada a noite de Natal, começavam as visitas aos presépios. Além das igrejas, que apresentavam composições mais simples, obedientes ao misticismo do acontecimento, alguns se esmeravam nas montagens, como Adão Hoffmann e Aninha de Frias, famosos pela variedade das cenas inteiramente movimentadas, atraindo multidões de apreciadores.

O comércio em geral, muito desenvolvido, na sua prática diferia bastante do sistema atual. De manhã, encontravam-se pelas ruas vendedores ambulantes que, a domicílio, negociavam os mais variados gêneros como, leite, pão, carnem hortaliças, doces, peixes, quadros, tapetes e uma infinidade de coisas. Os mascates, levando nas costas o baú de miudezas, ou por meio de carrinhos envidraçados, onde se encontrava uma loja em miniatura, giravam pela Cidade.

Nas noites de espetáculos artísticos, era infalível o comparecimento dos quitandeiros com seus tabuleiros de doces e salgados, iguarias avidamente consumidas durante os intervalos.

Os proprietários dos estabelecimentos facilitavam a venda de seus artigos, enviando-os para escolha, na residência dos fregueses. Chapéus, sapatos e roupas. Existiam amostras de rendas, fitas, botões, sedas e casemiras, muito usadas pelas modistas,

É os preços não subiam por causa dessas facilidades, sendo os mesmos cobrados no balcão, havendo firmas que ainda ofereciam brindes. Conhecidíssimas pelas suas especialidades eram as casas: Vermelha, Verde e Americana no ramo de fazendas, armarinho, materiais para construções, iluminação, louças e ferragens; Casa Godofredo; Sementes de flores, hortaliças, velas de cera, cartões postais, vendiam-se nos bazares China e Japão; Gêneros alimentícios forneciam os armazéns do Barroso, Forster e Maia; Sapatos de nacional ou importado, era no Rei do Calçado; Fumos e cigarros eram tradicionais os da Casa Havanesa; Músicas, brinquedos, cadernos, papelaria e impresso, era no Livro Azul, Casa Mascotte, de José Martins Ladeira e Genoud; Vinho, licores, queijos e enlatados na Casa Inglesa, na Rua Dr. Quirino.

Dos bares e restaurantes populares nessa época, destacavam-se o Christophani, Barsotti, Confeitaria Tolle, Torre Eiffel e Café Guarany, que também servia refeições. Alguns desses estabelecimentos mantinham pequenos conjuntos musicais, oferecendo aos clientes horas de música.

Com a despesa de 600 réis, preço de um saboroso chopp, qualquer cavalheiro, sem que ninguém o molestasse, passava horas sentado, ouvindo trechos de óperas, operetas ou melodiosas valsas vienenses.

Os reclames e a propaganda comercial, além das publicações incertas nos jornais, folhetos e muros, as vezes eram feitos por meio de carroças e bondes, onde havia um sino ou banda de música, anunciando as novidades. As grandes companhias circenses, no dia da estreia, costumavam desfilar pela cidade, com seus artistas vestidos a caráter, animais e charanga, despertando o interesse popular que deveria influir no movimento das bilheterias.

Entre os clubes recreativos frequentados, citamos o Camões e o Mogyana, este, estava instalado nos altos do sobrado ao lado da Igreja N. Sra. do Rosário. Um dos clubes mais frequentados da cidade, possuindo numeroso quadro social.
Suas reuniões dançantes eram animadíssimas, bailes e vesperais domingueiras, animadas pela excelente orquestra, sob direção de D. Anna Gomes, irmã do Maestro Carlos Gomes.
Nota interessante sobre essa extinta associação, era a valsa especial “Mogyana” executada a meia-noite, quando então dançavam todos os membros da diretoria em confraternização e em homenagem as famílias e convidados presentes.

 

 

Em 1922, realizavam-se importantes festividades comemorativas do primeiro centenário de nossa Independência. Com a presença das autoridades estaduais e municipais, no Instituto Profissional Bento Quirino abria-se a Grande Exposição preparatória, reunindo mostruários de produtos agrícolas, industriais e artísticos. Parte desse material seguiu para o Rio de Janeiro, sendo aqui a única cidade a figurar com pavilhão próprio entre os demais apresentados na Feira Internacional de Amostras.

Em 1923, inauguravam-se as restaurações da Catedral. Das festas organizadas para a obtenção  dos fundos necessários, destacou-se a quermesse levada a efeito na Praça Carlos Gomes, certame dos mais belos e originais que teve.

A 08 de setembro de 1923, em sessão especial realizada no Cine Rink, projetava-se o filme “João da Matta, primeira película cinematográfica produzida aqui, com entrecho e direção de Amilar Alves. Tempos depois, fundava-se a “A.P.A. Filme”, realizando “Sofrer para Gozar”, gênero far west, e “A Carne”, baseada no romance de Júlio Ribeiro. Surgindo numa época de ensaios e tentativas do cinema nacional, essas produções alcançaram o mais significativo êxito, superando outros trabalhos congêneres feitos no país.

Amilar Alves, Felippe Ricci, Thomaz de Túllio, J. C. Kerrigan, Emílio Zarattini, J. Carneiro, Victorino Oliveira Prata, José Ziggiatti, foram os pioneiros da sétima arte.

A 09 de maio de 1924, abria-se o Cine São Carlos, instalado em edifício especialmente construído para aquele fim. O Colyseu, pavilhão de touradas e adaptado para cinema, funcionava com animadíssimos espetáculos populares, e no Rink estavam na ordem do dias as famosas sessão coloridas, “vert, bleu e rouge”.

Em janeiro de 1925, na Praça José Bonifácio(Largo da Cetdral), era inaugurado o Cine República, com ampla sala de exibições, comportando duas mil pessoas.

Demolido o Theatro S. Carlos, após setenta e dois anos de atividades, no mesmo local, a 10 de setembro de 1930, abria suas portas o majestoso e imponente Teatro Municipal Carlos Gomes, demolido em 1965.

Com grande pesar para os campineiros, a 31 de outubro de 1933, durante a noite, foram cortadas as últimas árvores da Praça Visconde de Indaiatuba(Largo do Rosário), aliás, já bastante modificado na sua forma primitiva.

O chafariz foi removido para o Largo do Pará, cedendo lugar ao Monumento à Campos Salles, que foi transferido para o início da avenida com seu nome, nada mais restando, do antigo jardim, que, durante trinta e cinco anos, caracterizara o centro da Cidade.

1935 – Vigoroso impulso de progresso começava a se registrar por todos os lados da cidade. O perímetro urbano dilatava-se em novos e florescente bairros, alargavam-se ruas e vielas centenárias. Campinas aformoseava-se a olhos vistos. Pelos meados desse ano, os transeuntes que passa pela B. Jaguara nas imediações da César Bierrenbach olhavam para o alto admirados, e por que não dizer, orgulhosos daquele edifício de cinco pavimentos, em construção naquele local.

Era o primeiro arranha-céu de Campinas,  projeto do engenheiro Lix da Cunha, marco inicial de uma outra arquitetura, dinâmica, funcional e grandiosa que chegava para se multiplicar , apagando as velhas perspectivas da cidade provinciana de outrora, hoje, populosa trepidante e modernizada.

(José de Castro Mendes)

 

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