A ÉPOCA COLONIAL

O POVOAMENTO DE CAMPINAS
O povoamento de Campinas está relacionado com a descoberta do ouro, na região de Goiás, no primeiro quartel do século XVIII, por Bartolomeu Bueno da Silva, “O segundo Anhanguera”, nas bacias do Tocantins e Araguaia.
A história nos relata que a ocupação do interior paulista processou-se de uma maneira lenta e gradativa, pois com a decadência da mineração, os habitantes do planalto de Piratininga voltaram suas vistas para a agricultura, ocupando terras e levando suas famílias.
É interessante observar que o sertão sempre atraiu os paulistas visto que a Vila de São Paulo, sendo extremamente pobre, não oferecia atrativo algum aos seus moradores, obrigando-os a se locomoverem para outras plagas em busca de riqueza e bem-estar.
Os mapas antigos e roteiros da Capitania de São Paulo, do segundo quartel do século XVIII, assinalam que os habitantes de Jundiaí exploram a região situada entre Rocinha (atual Vinhedo) e o rio Atibaia, à qual dão o nome de Campinas de Mato Grosso, em alusão à existência de campinhos na densa floresta. Era um local de trânsito contínuo de viajantes e tropeiros, maravilhados com a abundância d’água e pastagens excelentes capazes de satisfazer as necessidades dos animais de carga.
A partir de 1721, no governo do Capitão-General Rodrigo César de Menezes, a região compreendida entre Jundiaí, Mogi-Mirim e Franca, começa a ser devassada, com a abertura do “Caminho dos Goiases”, quando a então estrada de Jundiaí às minas de Goiás atravessava a localidade, depois conhecida por Campinas Velhas que abrangia a área do córrego Proença até a estrada do Taquaral. Ali foi formado um primeiro pouso com a construção de um rancho, coberto de sapé, para a permanência dos viajantes e guardar os seus arreios, selas e demais apetrechos.
Outros ranchos seriam instalados em locais diferentes dada à necessidade de gêneros alimentícios, onde tropeiros procuram ampliar as áreas cultivadas, desenvolvendo uma economia de subsistência ao plantar milho, principal produto, mandioca, algodão, arroz, feijão e amendoim.
A reunião desses lotes cultivados cria condições para a formação do Bairro de Mato Grosso. Não há, porém, qualquer aspiração, nesses primeiros tempos, de crescimento e, apesar do aumento da produção de carne e toucinho, podemos deduzir que a função do rancho é alojar tropas e provê-las de alimentos.
Com o primeiro recenseamento ocorrido, em 1767, o bairro apresenta 265 habitantes e 53 casas, incluindo Vinhedo. É importante ressaltar que o Bairro está sob jurisdição de Jundiaí que, valendo-se de suas prerrogativas, distribui justiça, desloca milicianos e presta assistência religiosa.
Para acabar com está situação anômala, o Capitão-General da Capitânia de São Paulo, D. Luís Antônio de Sousa Botelho e Mourão, o Morgado de Matheus* expede um bando ao Capitão-Mor de Jundiaí para que providencie imediatamente a povoação de Campinas.
* Governou de 1765 a 1775. Sua administração foi muito proveitosa, pois foram criadas mais de vinte povoações com o objetivo de ocupar e povoar o sertão. Além do mais, criou o Regimento de Tropas Pagas e o primeiro correio terrestre entre o Rio de Janeiro e São Paulo.

A FUNDAÇÃO DA CIDADE
Francisco Barreto Leme do Prado (1704 -1782), natural de Caçapava Velha, na época jurisdição de Taubaté, foi o verdadeiro fundador*em 14 de julho de 1774. Antes de transferir sua residência para estas paragens, possuía um sítio onde se dedicava à cultura de cereais. Em meados do século XVIII, a convite de um primo, estabeleceu-se nas terras férteis situadas a dez léguas de Jundiaí e para cá mudou-se com numerosa família, formando lavoura.
Foi nomeado “fundador”, administrador e diretor da nova povoação das Campinas de Mato Grosso, numa provisão expedida pelo próprio Morgado de Matheus, em 27 de maio de 1774, determinando também normas para o povoamento e os primeiros lineamentos da nova povoação.
Dizia a citada autoridade?
“Porquanto tenho encarregado a Francisco Barreto Leme formar uma povoação na paragem chamada Campinas de Mato Grosso, distrito de Jundiaí, em sítio onde se acha melhor comodidade e, é preciso dar norma certa para a formatura da referida povoação: ordeno que está seja formada em quadras de sessenta ou oitenta varas cada uma e daí para cima, e que as ruas sejam de sessenta palmos de largura, mandando formar as primeiras casas nos ângulos das quadras, de modo que fiquem os quintais para dentro a entestar uns com os outros.
São Paulo, 27 de maio de 1774.”
Tal documento nos permite avaliar que Campinas foi planejada por Morgado de Matheus, seu mentor intelectual e, segundo Benedito Barbosa Pupo, “ela nasceu dentro de diretrizes constantes de um plano urbanístico.”
Barreto Leme, seu primeiro diretor, num gesto de grandeza d’alma, faz a doação de suas próprias terras (um quarto de légua) para que nelas se estabelecesse o povoado, “com quadras unidas à Matriz e limitadas pelas atuais ruas Barão de Jaguara, Barreto Leme, Sacramento e Bernardino de Campos, isto é, em torno da atual Praça Bento Quirino. Dotado de grande espírito religioso, também doa à igreja matriz uma casa, com a cláusula de serem os seus rendimentos empregados em sufrágio das almas do purgatório.
Cabe observar que os seus parentes muito contribuíram para o povoamento da região, ao se distribuírem pelas terras adjacentes onde também conseguiram sesmarias, caso por exemplo, de seu filho, Bernardo Guedes Barreto (1750-1825) que, com vinte e quatro anos, acompanhou seu pai, ao assinar o requerimento dirigido, em 1774, ao bispo de São Paulo, D. Manoel da Ressurreição, pedindo a criação da Freguesia de Campinas. Bernardo dedicava-se à criação de cavalos e muar, que eram empregados nos transportes de cargas para as minas de Goiás. Em 1800, conseguiu uma concessão de terras onde pode formar a Fazenda Taquaral, com muitos escravos e muita produção de açúcar, sendo uma das mais prósperas da região. Ocupou também a vereança da Vila, em 1799 e 1804.
Outra figura de proa no povoamento foi o genro de Barreto Leme, o português, Domingos da Costa Machado (1720-1808), natural de São Salvador dos Minhotões, município de Braga. Suas terras eram excelentes e estavam localizadas entre os rios Atibaia e Jaguari. Em 1774, informava possuir “280 alqueires de milho, 25 de feijão, 10 de arroz, 9 arrobas de fumo, 5 de algodão e 60 canadas de aguardente (…), 5 cabeças de gados, 8 cavalos e 30 porcos (…), 2 agregados e 6 escravos.
Chegou a ser soldado das Ordenanças de Jundiaí e participou ativamente na criação da Vila, em 1797, onde fazia parte dos “sessenta e um homens bons”**
Outro fator que muito contribuiu para sedimentar a população foi a religiosidade de seus moradores que, imbuídos de grande fé religiosa, requerem, em 1773, ao bispo de S. Paulo, uma autorização para erigir uma capela alegando que ali já havia um cemitério bento para a sepultura dos fiéis. Dada a autorização, imediatamente foi construída uma capela modesta, estreita e baixa, coberta de sapé, edificada no local onde hoje se ergue o monumento-túmulo à Carlos Gomes. Serviu provisoriamente de igreja matriz até 1781, quando se inaugurou outra, chamada de Matriz Melha e que daria lugar à majestosa Basílica de Nossa Senhora do Carmo. Assim, criou-se em 1774, a Freguesia de Nossa Senhora da Conceição das Campinas do Mato Grosso, separada da de Jundiaí e sujeita à autoridade diocesana de São Paulo.
O primeiro pároco foi o Frei Antônio de Pádua Teixeira que, a convite de Barreto Leme, celebrou a primeira missa e o ajudou a fundar a povoação. Este humilde sacerdote, era natural de Baependi, Minas Gerais, onde nascera, em 1743. Depois de completar os seus estudos primários, em sua terra natal, movido por uma inabalável vocação religiosa, entrou no Convento de Nossa Senhora dos Anjos, em Cabo Frio, sendo aceito na Ordem dos Frades Menores de São Francisco, tomando o hábito aos 25 de dezembro de 1762. Mais tarde, transfere-se para São Paulo, em cujo convento é admitido para os estudos de Filosofia. Em julho de 1774, é nomeado, a título provisório, vigário da paróquia de Campinas. Tamanha era a sua dedicação aos seus paroquianos que não media esforços no sentido de angariar fundos para a construção da matriz, chegando a pedir esmolas na estrada de Goiás. Permaneceu em Campinas até 1779, quando então transferiu-se para o convento São Luís, na vila de Itu, permanecendo até sua morte, ocorrida aos 31 de maio de 1805. Foi considerado mui justamente o co-fundador de Campinas.
* É oportuno lembrar aqui as observações do Prof. Odilon Nogueira de Matos, acerca da diferença entre a fundação real e oficial. Para ele, a primeira “é quase impossível de ser estabelecida com precisão, uma vez que a fundação de uma cidade resulta de um lento processo de fixação de povoamento”, enquanto que a segunda “é sancionada pelos mais antigos documentos. A simples concessão de sesmaria nem sempre pode ser considerada marca de fundação, pois a sesmaria em si não implica em povoamento ou fundação da cidade”. In: Notícia Bibliográfica e Histórica, n 19, jan-fev., 1971, p.33.
** Pessoas altamente qualificadas, pela sua honorabilidade, para exercer importantes cargos públicos.

PROF. DUÍLIO BATTISTONI FILHO

 

FONTES
Daunt, Ricardo Gumbleton. Reminiscências do Districto de Campinas em Bairro, Freguezia e Villa. Revista do Centro de Sciências, Letras e Artes, n 7, 1905, p. 123.
Santos FILHO, Lycurgo de Castro. Campinas (Evolução Histórica). Publicação da Academia Campinense de Letras, vol. 19, 1969, p. 13.
Apud, “O passado de Campinas através dos textos”. Seleção, introdução e notas de Odilon Nogueira de Matos. In: Notícia Bibliográfica e Histórica, n 59, p. 275.
Pupo, Benedito Barbosa. À Margem da História de Campinas. Editora Palmeiras, 1973, p. 11.
Pupo, Celso Maria Mello. Campinas, seu Berço e Juventude. Publicação da Academia Campinense, n 20, 1969, p. 46.
CAMPOS JÚNIOR, Theodoro de Souza. História da Fundação de Campinas. In: Monografia Histórica do Município de Campinas, Rio de Janeiro, IBGE, 1952, p. 177.

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