DIGA O QUE PENSA…

Como recebeu a fundação da Academia Campinense de Letras? – Acha que mulheres deveriam fazer parte daquele sodalício?

 

Repercussão da mais gratas teve a genial ideia de se fundar a Academia Campinense de Letras. Já se sentia mesmo a necessidade de congregar os intelectuais de Campinas, em torno de um centro que irradiasse os pendores literários de cada um.  Poetas, escritores,  mestres da literatura, prosadores, historiadores, enfim, todos que se revelam expoentes da cultura clássica, são guindados à nobre companhia, para a formação de uma pleiades de imortais campineiros, dignos, pois, de um título e de uma cadeira que representam o prêmio altivo tão sonhado por qualquer homem de letras.

Nada mais interessante então, que procuramos saber qual a impressão deixada nos meios intelectuais de Campinas, com o surgimento da ilustre agremiação. Escolhemos o rol das revelações femininas, aliás bem expressivo em Campinas, para buscarmos opiniões acerca do assunto, mesmo porque, nosso desejo se desviou, também, para outra pergunta não menos interessante: se mulheres deveriam fazer parte daquele sodalício. A indagação é bastante oportuna, mormente se considerarmos que ainda não foram preenchidos os números de cadeiras na nova Academia e este fato, consequentemente, poderia ser estudado pelos fundadores e atuais dirigentes da já vitoriosa entidade.    Eis, pois os depoimentos da Pianista Olga Rizzardo Normanha, da Poetisa Dirce Nogueira Mattosinho Cotomacci, da Profa. Maria Ary Fonseca e jornalista Maria José de Morais Pupo Nogueira.
RESPOSTAS:
Profa. Olga Rizzardo Normanha (1916-2013) – “A fundação da Academia Campinense de Letras constitui, sem dúvida, um motivo de justo orgulho e satisfação para a nossa cidade. A iniciativa reflete, fielmente, a evolução cultural por que tem passado nossa gente, sem dúvida, o progresso de nossa terra tem-se estampado, podemos dizer, marcadamente, em todos os setores do trabalho e das atividades humanas. No terreno das Letras, Campinas possui um número expressivo de intelectuais, dentro de variadas profissões, que se tornaram conhecidos e admirados pela manifestação do seu pensamento através do seu estilo literário.

 

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A paixão de Olga pela música veio da infância, quando se deliciava com os discos de música erudita do pai. Aprendeu as primeiras notas do piano com as freiras do Sagrado Coração de Jesus, onde estudou. Formou-se pelo Conservatório Dramático e Musical de São Paulo e teve como professores: Savino De Benedictis, Guilherme Mignone (casado com sua irmã), Mário de Andrade, João Sepe, João Gomes Araújo, Samuel Arcanjo dos Santos, Carlos Alberto Gomes Cardim e outros mestres.

 

A nossa imprensa trás exemplos vivos dessa afirmativa. Propiciando, a jornalistas, poetas e literatos, a expressão magnífica de suas ideias ou de suas imaginações criadoras, pela sublime arte do bem escrever, ela conduz aos ávidos da boa leitura, trabalhos e obras que, não raro, consagram os seus autores.   Congregando, agora, a entidade cultural recém-criada, a nossa elite literária dentro do seu arcabouço, contará, por certo, a nossa gente, com um incremento ainda maior dos trabalhos e realizações que envolvem o culto do vernáculo.

Certamente, sou favorável que a mulher campineira, que se dedica à literatura, ao jornalismo ou aos estudos da nossa língua, tenha o direito e a satisfação de participar dessa Academia, a qual, por sua vez, receberá também o lume daquela inteligência.   Não nos faltam nomes de mulheres campineiras, que pela sua reconhecida competência nesse campo das realizações intelectuais, se impõem pela beleza do seu estilo na arte de escrever ou falar. Felicitamos os fundadores da Academia Campinense de Letras e apresentamos a Campinas os parabéns pela grandiosidade do acontecimento.”                                         XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXX
Profa. Maria José de Morais Pupo Nogueira (1912-2015) – “Recebi a notícia da fundação da Academia Campinense de Letras com a natural boa acolhida que se dá aos bons empreendimentos. A Academia é um bom empreendimento, não resta dúvida. Campinas cidade grande e culta como é, pode e deve ter sua a Academia que será, antes de mais nada, uma fonte de estímulo não só para os que a congregam, como para os que, longe dela, percorrem o iluminado caminho das Letras. Será mais uma força a impulsionar o progresso da cidade. Como as suas irmãs maiores de São Paulo e do Rio, por certo realizará, entre suas atividades específicas, concursos literários, recurso esse que tem feito vir à tona tanta beleza oculta no fundo de tantos talentos ignorados!

 

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Maria José foi a primeira mulher a ocupar uma cadeira na Academia Campinense de Letras (ACL), desde 2 de junho de 1969, e a primeira campineira a ser premiada pela Academia Brasileira de Letras. Filha do fazendeiro Francisco José de Morais, vivenciou as transformações pelas quais Campinas passou ao longo do século em que viveu. Viu o pai obedecer ao pedido desesperado do governo para queimar sacas de café. Conviveu com personalidades ilustres de Campinas, como José de Castro Mendes, de quem seu marido era neto. E foi fã de carteirinha do cunhado, Paulo Arthur Mendes Pupo Nogueira, o Paulinho Nogueira, compositor reconhecido internacionalmente pelo talento. Foi diretora do departamento de Cultura da Prefeitura Municipal de Campinas e do Teatro Municipal. Ainda jovem começou a escrever livros de literatura, premiados em todos os cantos do País, como Natal Solitário, Céu Escuro, Ana e O Órfão e a Mulata.

 

Inegavelmente todo esse movimento de força cultural terá que vibrar na mocidade, enriquecendo a ávida intelectualidade jovem de Campinas. Incentivar, fazer florescer a inteligência da geração que viceja, eis um dos valores básicos da Academia. Reunidos os intelectuais, conclamados à realização do seus objetivos muito mais trabalharão do que se estivessem isolados e dispersos. Negar o valor da Academia, deslustrar-lhe às utilidades realizáveis, será baixar os olhos à verdade.

Quanto a segunda pergunta: – Devem as mulheres fazer parte da Academia? Está claro que respondo que sim.

Não sei qual seja o motivo remoto que tem negado a mulher – mesmo nos meios mais avançados de cultura e progresso – o acesso às Academias. Deve ser um galho que ainda pende da velha árvore da tradição, tradição essa que afastou a mulher antiga da fonte da cultura, asfixiando-lhe o sagrado lampejo da inspiração e o estro que ressoava em sua alma… Dia a dia, porém, mais amplos e mais claros vão se alargando os horizontes da compreensão e surge a mulher em todos os âmbitos da atividade humana. Mais e mais vai ela participando dos anseios inquietantes, mas cheios de esperança para um mundo melhor e mais belo! Justo, portanto que, também, ela ocupe um merecido lugar nas Academias. ”

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Profa. Maria Ary Fonseca – “Poucas emoções se igualam, para mim, ao prazer de uma bela leitura. Se as ideias convencem-me, a forma encanta-me, chegando a empolgar-me.   Eis, porque, a fundação da Academia Campinense de Letras teve de minha parte uma sincera e entusiasta acolhida. Como educadora sinto, desvanecida, que cultuando e cultivando a língua pátria, esse instituto concretiza os ideais da educação estética e da formação do espírito nacional em nosso meio.

 

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Maria Ary Fonseca, foi catedrática do Instituto de Educação “Carlos Gomes”. Exímia declamadora e oradora.

 

Se acho que mulheres deveriam fazer parte da novel Academia? Porque não? Desde que apresentem as devidas credenciais, não vejo razão para serem excluídas desse “banquete”. Elas sempre ocupa lugar destacado na literatura de ficção, e, ao longo da História, se não figuram entre os imortais de Atenas, aparecem ao lado de Carlos Magno fundando a primeira Academia de Letras da Europa Ocidental e depois honrando seus patronos e ilustrando suas cadeiras. Contrapondo sua efetividade, seu “esprit de finesse” de que fala Pascal, do vigor do raciocínio especulativo do homem, “elas irão criar naquele ambiente o clima de equilíbrio psicológico tão necessário às produções do espírito. Naturalmente sensíveis à beleza e hábeis no manejo da língua, não lhes faltam os predicados exigidos pelos “testes” de aptidão literária.”

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 Profa. Dirce Nogueira Mattosinho Cotomacci (1919)– “O advento de um instituto literário ou científico – chama-se lhe academia, grêmio ou centro de estudos – revela, em qualquer latitude, acentuado grau de amadurecimento intelectual de um povo e de uma sociedade. É fato corriqueiro, nos domínios da Sociologia, a natureza gregária do Homem.

 

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Dirce, nascida em Jaú. Professora, escritora e poeta. Viúva do Prof. Álvaro Cotomacci.

 

Quando este fenômeno ocorre, com frequência, nas manifestações mais prosaicas da vida em comunidade, com muito mais ênfase deve encarar-se o congraçamento da inteligência, onde se cultivam às prendas do espírito e de onde, consequentemente, defluem realizações no campo da estética. Daí o meu regozijo e a minha quase euforia em face da constituição da Academia Campinense de Letras, que eu saúdo como o repontar de uma era de fastígio dos nossos foros da Cidade requintadamente culta e civilizada.

Tenho, entretanto, para mim, que o nosso incipiente cenáculo, se quiser frondejar e impor-se realmente como instituição respeitável por uma ilibada seriedade de propósitos, deverá, por todos os modos, fugir aquele caráter frívolo e pedantesco, de que se tem revestido às suas congêneres nacionais, onde impera a fossilização, o ranço e a solene e supina inutilidade.

Quanto ao ingresso de mulheres naquele sodalício, não vejo por que não deva responder pela afirmativa. Contestá-lo, seria negar a própria evidência dos fatos, que aí estão, na multiplicidade de seus aspectos, dentro ou fora de nossas lides geográficas, a demonstrar a paridade de condições entre o homem e a mulher. Teria Deus, em sua infinita sabedoria, recusado a está aquilo que supostamente se atribui como exclusivo daquele? O curso da história o tem desmentido, implacavelmente. As mulheres, não as temos filósofas, cientistas, educadoras, beletristas? E a aguçada sensibilidade feminina, que a conduz mais que ao homem, aos domínios sempre maravilhosos da estética?”.
HISTÓRICO

Em 1956, o linguista Francisco Ribeiro Sampaio, então secretário municipal de Educação e Cultura e titular da cadeira de filologia portuguesa na Pontifícia Universidade Católica de Campinas, fundou a Academia Campinense de Letras (ACL), com o objetivo de reunir os literatos da cidade. A sessão de posse e instalação ocorreu em 22 de novembro do mesmo ano, tendo sido eleito como primeiro presidente o próprio Prof. Sampaio, para um mandato de dois anos. Seguindo os moldes da Academia Brasileira de Letras, a ACL é composta de quarenta cadeiras de provimento vitalício. Foram escolhidos, na ocasião de sua fundação, 16 nomes para formar o corpo acadêmico dos fundadores. Esses, por sua vez, elegeram outros 24 intelectuais para compor o primeiro quadro de imortais.

 

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A Academia Campinense de Letras.

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