Mestre Domingues

João Barbeiro, porém, não pretendia descansar naquela noite. Soavam-lhe aos ouvidos os assovios do “Bacalhau” lanhando carnes dos patrícios. Uma estria de sangue no seus olhos, parecia, tinha cor das feridas abertas na carne sangrando dos “parceiros”, na tarde anterior, quando batidos pelo filho do Capitão Paula. Dirigiu-se para o Bairro Alto, próximo do Largo do Pará, onde Mestre Domingues – Ignácio Domingues dos Santos – negro forro, como ele, tinha uma venda de molhados.  Uma vez acomodado na casa do amigo, descansou um pouco. O parceiro, que possuía um estabelecimento modesto, onde vendia centenas de quinquilharias, além de pinga, fumo, etc, não estranhou a visita do macambi. Respeitara o amigo, que viera da Bahia onde sabia que se metera em alguns motins dos Nagôs e Haussás. Era tido como valente e não temia rebenque, nem trabuco, nem durindana. Dizia-se até que o modesto Nagô pertencera ao quilombo do Urubu, no Pirajá ou fora parte saliente no motim do Recôncavo. Respeitava seus ares misteriosos como se fosse algum enviado da sua tribo, falando bem e corretamente o africano .

Tinha ares da macota e um poder superior atribuía a seus orixás. A lamparina projetava a cabeça pequena de Mestre Barbeiro na parede, aumentando-a como uma sombra enorme que se movesse. Trançou os dedos nos joelhos e balançando as pernas foi dizendo, com ar compungido: – “Olarum proteja a nossa gente, muçuá. Parece que vamo tê matanga…”;

– “É…. ê….”;

– “Tudo isso pru causa dum branco atoa que atrevessô as dança  no pátio do Rosário. Num tá certo, Mestre Ignácio! Num tá dereito. Tanta cruerdade… Branco tá judiano da gente. Tenho dó de vê os macambi tudo panhando no pelourinho. Há de saí um levante ainda mesmo que Exú tenha de ajuda nego véio…”;

– “É…. é….”; 

– “Tem medo, não. Já avisei o Tonio prá passa aqui quando viê pra Vila…”

E como quem muda de repente de pensamento:

– “Ignácio, quantos parcêro tem na Vila?”

-“Tem mais que branco. Os branco são poco e nóis tamo sempre panhano do rêio do pelorinho. Nossa raça há de sê sempre malamba. Chega pra perto macambi.”

Mestre Ignácio Domingues quase colou os ouvidos a boca do parceiro. Ouvia, admirado, suas palavras, arregalando os olhos de quando vem vez. Evidentemente João Barbeiro era um gênio, lá devia pensar ele. Um riso amarelo, de quando em quando, lhe iluminava o semblante, movendo os malares salientes, rilhando os dentes e sorrindo… sorrindo sempre.

Jolumá Britto, in “História da Cidade de Campinas”

A VELHA CAMPINAS

Crônica “A Velha Campians”, escrita em 1900, pela escritora Júlia Lopes de Almeida (1862-1934) à pedido de Leopoldo Augusto do Amaral Gurgel. 

Júlia Lopes de Almeida

 

Certamente que essa viagem não merecia às honras de ser contada, e não o seria nunca, se a índole deste livro não viesse despertar em mim, não sei se saudade ou se outro sentimento que ainda não achou definição precisa, que torna a lembrança deleitosa, sem acre doçura de que falou o poeta.

Saudade que faz sorrir deve ter outro nome; o coração não confunde às coisas, como o espírito. Mas isso pouco importa, e não é nessa página avulsa, seca e mirrada como folha outoniça, que tão melindrosos assuntos devem de ser tratados, nem eu teria a presunção de analisar com proveito essas delicadezas complicadíssimas da psicologia. 

 É seria bom se eu conseguisse explicá-las como às sinto, por que elas justificariam de algum modo às banalidades que vou derramando no papel. Foi há trinta anos, justamente trinta anos…eu teria pouco mais de um metro de altura, quando um dia se deu volta à chave da casa do Catete e abalamos para São Paulo. Minhas irmãs levavam talvez os olhos lacrimoso, não me lembro; sei que a mamãe (perdoai a familiaridade com que estás coisas são ditas) ia contente, porque lá a esperava o esposo, já restabelecido da pneumonia, e que eu levava como bagagem , no coração a curiosidade de mudar; nas mãos um pombo branco, livre de gaiolas e de laços. Foi esse um personagem de alguma importância na minha vida… Só por isso o apresento. Há certas analogias entre as aves e as crianças , pelo menos entendem-se bem. O pombo branco, que se lhe não via em todo o corpo uma sombra, amava-me, e eu, creio que não lhe ficava a dever nada… No mar, até Santos, de Santos a São Paulo, de São Paulo a Jundiaí, tudo se passou pouco mais ou menos como hoje se passa. O caso mudou de figura de Jundiaí, até onde chegava o trem de ferro para Campinas. Aí o vagão era substituído por uma diligência desengonçada e a máquina por uma ou mais parelhas de animais. Fugiu-me da lembrança a fisionomia dessa pequena povoação paulista, tão boa, verdade é que às crianças prestam pouca atenção as coisas materiais, só lhes fica na mente o que sugere uma ideia ou tem um caráter especialíssimo. 

Chovia; a cada solavanco da caranguejola as rodas atolavam-se profundamente no barro, de um vermelhão que a água assanhava; dentre às taboas ringidoras do tejadilho caiam pesadas gotas de lama; de vez em quando uma ou outra cantava na palha do meu chapéu, e eu, bem no centro da diligência, mal acomodada nos joelhos de minhas irmãs, verificava com assombro e tristeza que o Céu de São Paulo era bem menos asseado que o do Rio, se mudava em negras, as flores azuis do meu chapéu!

    Desvaneceu-se a minha desconfiança ao saltar em Campinas, à porta do Hotel Pedro Alexandre. Lá dentro, no quarto agasalhado, a água com que a mamã Maria me lavou, era tão branca como a do Rio, com a diferença de que ainda me soube melhor.

  Mamã Maria! Como tudo isso já vai longe… mas, que tem Campinas com a mulata baiana que me contava histórias e cantava cantigas para me adormecer? Talvez tenha alguma coisa: lá lhe guarda os ossos; se eu pudesse pedir à terra algum favor, rogar-lhe-ia que se fizesse bem leve sobre seu caixão…

  Conquistei depressa a simpatia dos hóspedes do Hotel e de toda aquela rua do Commércio… com 6 anos e alegria toda a gente atrai. Dizendo os meus versos, choviam-me no colo bonecas e mais bonecas; e eu, descuidada delas, achando em todas a mesma expressão…o que me revoltava… preferia ouvir o papagaio do Sr. Pedro Alexandre, de que algum campineiro guardara memória. Que papagaio prodigioso aquele! Cantar Au clair de la lune e rezar ladainhas extraordinárias!

 Lembro-me que no dia seguinte, e nos imediatos, eu busquei com olhar ansioso um pouco de floresta, como às que deixara um ano antes em Friburgo. Eu levava do Catete a doce esperança de reaver gozos perdidos: apanhar pinhões e rolar em gramas orvalhadas. Não havia florestas ao pé de casa. Campinas era uma cidade, casas e mais casas, unidas umas as outras, mal entreabrindo as suas rótulas baixas, escondendo todas as paixões que lhe ferviam dentro. A primeira rua em que moramos, a do Imperador, era uma das mais solitárias, e em que as famílias mais avaramente guardavam a sua vida. Atrelada com as rédeas de linha que meu irmão guiava, percorria-a a trote muito convencida de bem desempenhar o meu papel de cavalo…e contente por não encontrar empecilhos no caminho, levantando nuvens de pó, rinchando, sacudindo a cabeça. É tudo ia bem, até que de uma esquina surgisse a figura do Giribita, ou do Paulo Maneta, ou da Margarida Louca, ou da Negra da Rendidura; então o cavalinho rebentava as rédeas e ia encolher-se lá dentro no colo protetor e doce de alguém, em que penso desde a primeira linha deste escrito.

  Eu era então a caçula… mas, que importa isso? De quem tenho de falar é deles, esses quatro tipos populares, de que todos campineiros da minha idade guardarão memória. 

  O Giribita era o mais celebre. Fazia discursos bombásticos, sempre vestido de preto, com a cartola amarrotada, com o sorriso de esguelha, os olhos piscos como de míopes. Diziam que fora ilustrado e só por paixão caíra naquela ignomínia da bebedeira. Sempre as paixões amorosas levam essas culpas… fosse porque fosse, o Giribita atroava as ruas desertas com os seus clamores de acadêmico exaltado. O que ele dizia não me interessava; nem eu o percebia. Os grandes riam; eu tinha medo. Não havia frase, por mais curta, em que ele não empregasse graves e agudos, saltando do tom de voz mais baixo ao mais alto, sem transições que lhe tornassem a falta musical. 

O outro, o Paulo Maneta era curandeiro. Havia ameaça naqueles olhos de negro velho, que punham a criançada tonta. Andava sempre com feixes de ervas embaixo do braço, murmurando rezas e feitiçarias….

 A mais tolerada era a velha Margarida Louca, sempre com a ilusão de embalar uma criança e que percorria a cidade com os braços vazios e na atitude de quem carrega um fardo. Comoveu-me a lembrança dessa mulher, a quem naturalmente a morte de alguém atirou na miséria. Feliz, ainda assim, na sua ilusão de louca: embalava e beijava o filho que já não tinha. As crianças deviam de ser olhadas com doçura por ela. Lembro-me do seus brandos olhos azuis de alemã, da sua roupa limpinha, dos seus discursos interrompidos com o:  – dorme, dorme – em que um gesto de afago, perdido no ar, acompanhava a meiguice. Era alma de mãe, errante, o símbolo de uma tristeza que só agora compreendo. 

Pobre Margarida Louca, tenho remorsos de ter tido medo de ti!

   A mais lúgubre de todas era a Negra da Rendidura, como a chamavam. Essa, alta, magra, sórdida, vestida de trapos, caminhando agarrada a um pau, em passo lento, só descerrava os lábios para cantar com voz soturna e em toada monotoníssima: ‘Andéu andeu, minha menina, eu vai-se embola, na minha terra… muito fundo!’. É a está última palavra ela unia o dedo ao chão, furando a terra coma unha …

Já lá deve estar nesse país muito fundo, esse país negro e frio, com cuja lembrança ela aterrava os outros. Lá estarão também o Giribita, o Paulo e a Margarida, descansada, enfim, da sua vigília materna…

A Campinas de 1900 não dará fé a tipos como esses, se os tiver. É outra cidade. Tem outros nomes as suas ruas, outra arquitetura as suas casas, outros costumes o seu povo; onde havia silêncio e desconfiança, há rumor, expansão, alegria e movimento.

Confundem-se as vozes, passam já despercebidas os tipos mais curiosos.

Que seja assim, que em nada se pareça a Campinas de 1900 com a de 1870; mas, é a de 70, que, principalmente, eu quero bem, porque é a de minha infância, e é a ela que eu mando nas pontas dos dedos trêmulos de comoção. Um beijo de saudade!

 

 

 

Marino Ziggiatti

Marino Ziggiatti, nasceu em Campinas, em 28 de maio de 1926. Filho de José (Giuseppe) Luigi Ziggiatti e Catharina Marotta Ziggiatti.

 

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Marino e Lúcia.

 

Casou-se com Lúcia Maselli Ziggiatti, deste matrimônio nasceu: José Marcos e Maria Marta.

Fez o Primário no Educandário Santa Terezinha, dirigido pela família Ricci; o Ginásio no Liceu Salesiano N. Sra. Auxiliadora e o Científico no Colégio ‘Culto à Ciência’. Foi oficial  R-2, do C.P.O.R em 1948.

Formou-se em Engenharia Civil , em 1949, pela Escola de Engenharia Universidade Mackenzie, e desde de 1950, exerce a profissão de Engenheiro Civil, atuando no ramo de projetos e construções. Na mesma época, foi vice-presidente da Associação de Engenheiros e Arquitetos de Campinas.

 

Marino consolidou sua paixão pelo cinema quando estudava Engenharia no Mackenzie, em São Paulo. Na capital paulista, conheceu e cultivou muitos nomes ligados ao cinema no Brasil, como o crítico Paulo Emílio Salles Gomes. O campineiro frequentava os cursos de cinema oferecidos no MASP, conhecidos por formar gerações de cinéfilos com visão crítica e ansiosos pela produção nacional e internacional.

Após formar-se, Marino volta a Campinas em 1950, e passa a comentar sobre filmes e artistas com outros membros da Sociedade Reunidas, uma organização que agrupava médicos, engenheiros e advogados – as profissões mais cobiçadas em meados do século 20. Em um encontro na Sociedade Reunidas, o engenheiro recém-formado recebeu um convite de Roberto Pinto de Moura, para fundar e dirigir o Departamento de Cinema do CCLA, o que ocorreria em 1955.

Foi responsável pela realização do Concurso Musical para Jovens, por vários anos; e pela realização do 1º Festival de Cinema Super 8mm em Campinas (por dez anos – no CCLA). É sócio-fundador do Rotary Club de Campinas Sul, em 1962, do qual foi presidente em 1970/71.

Foi governador do Distrito 4590 do Rotary Internacional. É membro do Instituto Histórico, Geográfico e Genealógico de Campinas. Também foi presidente, por diversas vezes do Centro de Ciências Letras e Artes.

PRIMEIRAS TENTATIVAS DE CINEMA SONORO

POR JOSÉ DE CASTRO MENDES
“O cinema sonoro e falado, antes da sua invenção na forma bastante aperfeiçoada, que hoje conhecemos, sofreu várias tentativas que, não chegaram a resultados apreciáveis, devido aos métodos rudimentares de suas grotescas exibições, recebidas com ironia e ceticismo.
Uma das mais antigas demonstrações aqui realizadas nesse sentido, registrou-se no velho Teatro Rink, consistindo num simples gramofone de cilindro, que girava simultaneamente com a máquina projetora, numa combinação que não se ajustava perfeitamente, desencontrando-se a todo instante, provocando protestos e aborrecimentos ao público que afluía ao teatro interessado pela “novidade”.

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Cine Colyseu em 1947.

 

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Cine-Teatro São Carlos

Os filmes , de curta metragem, mostravam preferencialmente vistas de guerra, manobras navais e cenas cômicas, ilustradas com “ruídos” extras, além do gramofone. Mas o certo, é que nem todos apreciaram tais “efeitos”, como se observa no comentário publicado por uma folha local: “A empresa deve suprimir aquelas bichas chinesas fingindo fuzilaria, os toques de bumbos como o ribombar de um canhão e o número falante com o gramofone em desencontro com o cinematógrafo que, bem podem desaparecer, pois o nosso público não necessita de engodos”.
Santiago Pepe e sua mulher, dois ótimos artista de variedades que realizaram concorrida temporada no Rink, tentaram por sua vez, uma outra forma de se aliar o som à imagem dos filmes cinematográficos.
Fotografados numa gôndola em Veneza, cantando canções típicas italianas, durante a passagem do filme, ao lado do palco, por meio de megafones, interpretavam as mesmas melodias, obtendo resultados apreciáveis na combinação dos sons com o movimento dos lábios, agradando plenamente os espectadores. Boireau, cômico francês também nos ofereceu uma tentativa de cinema falado, acompanhando com ruídos e dialogação, os filmes de tropelias e palhaçadas que interpretava.
Outro processo que se tornou bastante usado nos cinemas locais, eram os efeitos “sonoros” que uma turma de garotos especializados produzia atrás da tela, usando para isso, os mais variados e improvisados instrumentos.
As aventuras de Tontolini, Max Linder ou Carlitos, geralmente ocupavam todo o material disponível .
Se tombava um armário de louças, nada mais apropiado de que um saco cheio de cacos de vidros despejados ao chão.
Para os duelos, o bater de duas colheres imitava perfeitamente o chocar das lâminas. Um trem em movimente, imitava-se com o esfregar dos sapatos sobre areia espalhada no soalho, e assim, de acordo com as necessidades, sempre havia o material “sonoro” apropriado.
O que não dava muito certo, geralmente, eram os tiroteios do Far West americano, eas cenas de guerra ilustradas com bombinhas, cujo espoucar continuava após o término das cenas.
Com o passar do tempo, tal sistema caiu em desuso, dando lugar a outra tentativa de se acompanhar o filme com músicas e cânticos apropriados. Grandes multidões acorriam ao Cine República quando ali eram projetadas fitas italianas com “Ver Nápoles e depois morrer”, apresentadas com grande orquestra e massa coral, na interpretação de melodias e canções peninsulares, que, entretanto, não possuíam nenhuma relação com o desenrolar do filme.
A “Vida, Paixão e Morte de N.S. Jesus Cristo”, produção colorida da Pathe Fréres, obrigatória nos programas da Semana Santa, também merecia cuidados especiais de “sonorização” sendo apresentada com acompanhamento de músicas sacras e coros, que aumentavam o efeito trágico de seus episódios.
Assim, por vários meios e processos imperfeitos, procurava-se completar a obra genial de Lumiére, tornando mais viva e real a fotografia animada, que marcou uma nova etapa no caminho das grandes conquistas humanas.
De experiências em experiências, após muitos anos de tentativas poucos satisfatórias, finalmente, a 28 de janeiro de 1930, no Cine São Carlos, exibia-se pela primeira vez em Campinas o verdadeiro cinema sonoro com o filme “O Pagão”, gravado pelo sistema Vitaphone, produção da Metro Goldwin Mayer, interpretada pelo famoso astro Ramon Novarro.
As fracassadas tentativas de sonorização do cinema apresentadas em várias ocasiões, deixaram dúvidas quanto ao êxito do novo processo a ponto de levar uma folha local a abrir enquete popular com as seguintes indagações: “O que pensa o leitor sobre o cinema falado? Campinas comportará um cinema falado? Haverá diariamente número suficiente de espectadores?”.
Mas, a revolucionária novidade, chegará mesmo para desbancar o cinema silencioso que estava com seus dias contados, sendo em pouco tempo abolido de um vez das casas exibidoras, e relegado ao esquecimento como antiquado, e sem mais oportunidades.
Através das grandes produções lançadas pelas fábricas americanas, filmes de enredo, entremeados de canções e bailados deslumbrantes, os empresários viram logo aumentar a frequência de suas casas e o crescente desenvolvimento das bilheterias.
O velho e tradicional Rink Campineiro, reduto de tantas atrações que ali passaram durante muitos anos, aderindo à grande novidade lançada com sucesso, depois de algumas reformas necessárias, a 5 de abril, apresentava “Folies 1929”, produção da Fox, anunciada como “alguma coisa que no se crê pela sua grandiosidade – 200 mulheres lindas, canções dolentes e bregeiras – sonho, arte e beleza”.
A concorrência na noite da estreia foi enorme, ficando a rua Barão de Jaguara intransitável pelo acúmulo de povo em frente às bilheterias do teatro.
Entretanto, apesar da enorme expectativa reinante, o aparelho Mellaphone, embora possante, com som em disco e no filme, por defeitos nas instalações elétricas, não funcionou a contento, interrompendo-se a projeção seguidamente, com grande desaponto do público.
Providênciada a vinda de um técnico da Capital, dias depois reabria-se o Rink, verificando-se então a verdadeira estreia dos aparelhos sonoros , com maior sucesso.
Acontecimento de singular importância que trouxe a cidaem suspense durante vários dias, foi a exibição da famosa película “Alvorada do Amor”, com Jeanete Mac Donald e Maurice Chevalier. Pela madrugada, a Banda Ítalo-Brasileira, percorrendo as ruas principais, anunciava o esperadíssimo espetáculo, e as entradas vendidas com antecedência, não chegaram para as encomendas, esgotando-se rapidamente, não só nas duas sessões da noite, como também para os dias seguintes.
Por todos os cantos, onde houvesse um vitrola, ouvia-se a famosa “Marcha dos Granadeiros” que se tornou a coqueluche da cidade, quebrando o recorde de Ramona, celebre valsa lançada em 1929.
Meses depois, em setembro, era o Cine República no Largo da Catedral, a entrar no rol das casas dotadas de aparelhos sonoros, sem contudo abandonar de uma vez os filmes mudos, reprisando sucessos como “Ver Nápoles e depois morrer”, e filmes da Pedigriota italiana.
A 19 de outubro, o Colyseu instalado no rua César Bierrenbach, com frente para o jardim Carlos Gomes, reabria-se exibindo o filme sonoro “Loucuras da Mocidade”, com Douglas Fairbanks Júnior e Loreta Young.

DIGA O QUE PENSA…

Como recebeu a fundação da Academia Campinense de Letras? – Acha que mulheres deveriam fazer parte daquele sodalício?

 

Repercussão da mais gratas teve a genial ideia de se fundar a Academia Campinense de Letras. Já se sentia mesmo a necessidade de congregar os intelectuais de Campinas, em torno de um centro que irradiasse os pendores literários de cada um.  Poetas, escritores,  mestres da literatura, prosadores, historiadores, enfim, todos que se revelam expoentes da cultura clássica, são guindados à nobre companhia, para a formação de uma pleiades de imortais campineiros, dignos, pois, de um título e de uma cadeira que representam o prêmio altivo tão sonhado por qualquer homem de letras.

Nada mais interessante então, que procuramos saber qual a impressão deixada nos meios intelectuais de Campinas, com o surgimento da ilustre agremiação. Escolhemos o rol das revelações femininas, aliás bem expressivo em Campinas, para buscarmos opiniões acerca do assunto, mesmo porque, nosso desejo se desviou, também, para outra pergunta não menos interessante: se mulheres deveriam fazer parte daquele sodalício. A indagação é bastante oportuna, mormente se considerarmos que ainda não foram preenchidos os números de cadeiras na nova Academia e este fato, consequentemente, poderia ser estudado pelos fundadores e atuais dirigentes da já vitoriosa entidade.    Eis, pois os depoimentos da Pianista Olga Rizzardo Normanha, da Poetisa Dirce Nogueira Mattosinho Cotomacci, da Profa. Maria Ary Fonseca e jornalista Maria José de Morais Pupo Nogueira.
RESPOSTAS:
Profa. Olga Rizzardo Normanha (1916-2013) – “A fundação da Academia Campinense de Letras constitui, sem dúvida, um motivo de justo orgulho e satisfação para a nossa cidade. A iniciativa reflete, fielmente, a evolução cultural por que tem passado nossa gente, sem dúvida, o progresso de nossa terra tem-se estampado, podemos dizer, marcadamente, em todos os setores do trabalho e das atividades humanas. No terreno das Letras, Campinas possui um número expressivo de intelectuais, dentro de variadas profissões, que se tornaram conhecidos e admirados pela manifestação do seu pensamento através do seu estilo literário.

 

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A paixão de Olga pela música veio da infância, quando se deliciava com os discos de música erudita do pai. Aprendeu as primeiras notas do piano com as freiras do Sagrado Coração de Jesus, onde estudou. Formou-se pelo Conservatório Dramático e Musical de São Paulo e teve como professores: Savino De Benedictis, Guilherme Mignone (casado com sua irmã), Mário de Andrade, João Sepe, João Gomes Araújo, Samuel Arcanjo dos Santos, Carlos Alberto Gomes Cardim e outros mestres.

 

A nossa imprensa trás exemplos vivos dessa afirmativa. Propiciando, a jornalistas, poetas e literatos, a expressão magnífica de suas ideias ou de suas imaginações criadoras, pela sublime arte do bem escrever, ela conduz aos ávidos da boa leitura, trabalhos e obras que, não raro, consagram os seus autores.   Congregando, agora, a entidade cultural recém-criada, a nossa elite literária dentro do seu arcabouço, contará, por certo, a nossa gente, com um incremento ainda maior dos trabalhos e realizações que envolvem o culto do vernáculo.

Certamente, sou favorável que a mulher campineira, que se dedica à literatura, ao jornalismo ou aos estudos da nossa língua, tenha o direito e a satisfação de participar dessa Academia, a qual, por sua vez, receberá também o lume daquela inteligência.   Não nos faltam nomes de mulheres campineiras, que pela sua reconhecida competência nesse campo das realizações intelectuais, se impõem pela beleza do seu estilo na arte de escrever ou falar. Felicitamos os fundadores da Academia Campinense de Letras e apresentamos a Campinas os parabéns pela grandiosidade do acontecimento.”                                         XXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXXX
Profa. Maria José de Morais Pupo Nogueira (1912-2015) – “Recebi a notícia da fundação da Academia Campinense de Letras com a natural boa acolhida que se dá aos bons empreendimentos. A Academia é um bom empreendimento, não resta dúvida. Campinas cidade grande e culta como é, pode e deve ter sua a Academia que será, antes de mais nada, uma fonte de estímulo não só para os que a congregam, como para os que, longe dela, percorrem o iluminado caminho das Letras. Será mais uma força a impulsionar o progresso da cidade. Como as suas irmãs maiores de São Paulo e do Rio, por certo realizará, entre suas atividades específicas, concursos literários, recurso esse que tem feito vir à tona tanta beleza oculta no fundo de tantos talentos ignorados!

 

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Maria José foi a primeira mulher a ocupar uma cadeira na Academia Campinense de Letras (ACL), desde 2 de junho de 1969, e a primeira campineira a ser premiada pela Academia Brasileira de Letras. Filha do fazendeiro Francisco José de Morais, vivenciou as transformações pelas quais Campinas passou ao longo do século em que viveu. Viu o pai obedecer ao pedido desesperado do governo para queimar sacas de café. Conviveu com personalidades ilustres de Campinas, como José de Castro Mendes, de quem seu marido era neto. E foi fã de carteirinha do cunhado, Paulo Arthur Mendes Pupo Nogueira, o Paulinho Nogueira, compositor reconhecido internacionalmente pelo talento. Foi diretora do departamento de Cultura da Prefeitura Municipal de Campinas e do Teatro Municipal. Ainda jovem começou a escrever livros de literatura, premiados em todos os cantos do País, como Natal Solitário, Céu Escuro, Ana e O Órfão e a Mulata.

 

Inegavelmente todo esse movimento de força cultural terá que vibrar na mocidade, enriquecendo a ávida intelectualidade jovem de Campinas. Incentivar, fazer florescer a inteligência da geração que viceja, eis um dos valores básicos da Academia. Reunidos os intelectuais, conclamados à realização do seus objetivos muito mais trabalharão do que se estivessem isolados e dispersos. Negar o valor da Academia, deslustrar-lhe às utilidades realizáveis, será baixar os olhos à verdade.

Quanto a segunda pergunta: – Devem as mulheres fazer parte da Academia? Está claro que respondo que sim.

Não sei qual seja o motivo remoto que tem negado a mulher – mesmo nos meios mais avançados de cultura e progresso – o acesso às Academias. Deve ser um galho que ainda pende da velha árvore da tradição, tradição essa que afastou a mulher antiga da fonte da cultura, asfixiando-lhe o sagrado lampejo da inspiração e o estro que ressoava em sua alma… Dia a dia, porém, mais amplos e mais claros vão se alargando os horizontes da compreensão e surge a mulher em todos os âmbitos da atividade humana. Mais e mais vai ela participando dos anseios inquietantes, mas cheios de esperança para um mundo melhor e mais belo! Justo, portanto que, também, ela ocupe um merecido lugar nas Academias. ”

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Profa. Maria Ary Fonseca – “Poucas emoções se igualam, para mim, ao prazer de uma bela leitura. Se as ideias convencem-me, a forma encanta-me, chegando a empolgar-me.   Eis, porque, a fundação da Academia Campinense de Letras teve de minha parte uma sincera e entusiasta acolhida. Como educadora sinto, desvanecida, que cultuando e cultivando a língua pátria, esse instituto concretiza os ideais da educação estética e da formação do espírito nacional em nosso meio.

 

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Maria Ary Fonseca, foi catedrática do Instituto de Educação “Carlos Gomes”. Exímia declamadora e oradora.

 

Se acho que mulheres deveriam fazer parte da novel Academia? Porque não? Desde que apresentem as devidas credenciais, não vejo razão para serem excluídas desse “banquete”. Elas sempre ocupa lugar destacado na literatura de ficção, e, ao longo da História, se não figuram entre os imortais de Atenas, aparecem ao lado de Carlos Magno fundando a primeira Academia de Letras da Europa Ocidental e depois honrando seus patronos e ilustrando suas cadeiras. Contrapondo sua efetividade, seu “esprit de finesse” de que fala Pascal, do vigor do raciocínio especulativo do homem, “elas irão criar naquele ambiente o clima de equilíbrio psicológico tão necessário às produções do espírito. Naturalmente sensíveis à beleza e hábeis no manejo da língua, não lhes faltam os predicados exigidos pelos “testes” de aptidão literária.”

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 Profa. Dirce Nogueira Mattosinho Cotomacci (1919)– “O advento de um instituto literário ou científico – chama-se lhe academia, grêmio ou centro de estudos – revela, em qualquer latitude, acentuado grau de amadurecimento intelectual de um povo e de uma sociedade. É fato corriqueiro, nos domínios da Sociologia, a natureza gregária do Homem.

 

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Dirce, nascida em Jaú. Professora, escritora e poeta. Viúva do Prof. Álvaro Cotomacci.

 

Quando este fenômeno ocorre, com frequência, nas manifestações mais prosaicas da vida em comunidade, com muito mais ênfase deve encarar-se o congraçamento da inteligência, onde se cultivam às prendas do espírito e de onde, consequentemente, defluem realizações no campo da estética. Daí o meu regozijo e a minha quase euforia em face da constituição da Academia Campinense de Letras, que eu saúdo como o repontar de uma era de fastígio dos nossos foros da Cidade requintadamente culta e civilizada.

Tenho, entretanto, para mim, que o nosso incipiente cenáculo, se quiser frondejar e impor-se realmente como instituição respeitável por uma ilibada seriedade de propósitos, deverá, por todos os modos, fugir aquele caráter frívolo e pedantesco, de que se tem revestido às suas congêneres nacionais, onde impera a fossilização, o ranço e a solene e supina inutilidade.

Quanto ao ingresso de mulheres naquele sodalício, não vejo por que não deva responder pela afirmativa. Contestá-lo, seria negar a própria evidência dos fatos, que aí estão, na multiplicidade de seus aspectos, dentro ou fora de nossas lides geográficas, a demonstrar a paridade de condições entre o homem e a mulher. Teria Deus, em sua infinita sabedoria, recusado a está aquilo que supostamente se atribui como exclusivo daquele? O curso da história o tem desmentido, implacavelmente. As mulheres, não as temos filósofas, cientistas, educadoras, beletristas? E a aguçada sensibilidade feminina, que a conduz mais que ao homem, aos domínios sempre maravilhosos da estética?”.
HISTÓRICO

Em 1956, o linguista Francisco Ribeiro Sampaio, então secretário municipal de Educação e Cultura e titular da cadeira de filologia portuguesa na Pontifícia Universidade Católica de Campinas, fundou a Academia Campinense de Letras (ACL), com o objetivo de reunir os literatos da cidade. A sessão de posse e instalação ocorreu em 22 de novembro do mesmo ano, tendo sido eleito como primeiro presidente o próprio Prof. Sampaio, para um mandato de dois anos. Seguindo os moldes da Academia Brasileira de Letras, a ACL é composta de quarenta cadeiras de provimento vitalício. Foram escolhidos, na ocasião de sua fundação, 16 nomes para formar o corpo acadêmico dos fundadores. Esses, por sua vez, elegeram outros 24 intelectuais para compor o primeiro quadro de imortais.

 

Academia Campinense de Letras
A Academia Campinense de Letras.

Dalva Tírico

DALVA TÍRICO
Campineira, filha de Felice Tírico, proprietário de um açougue na rua Dr. Qurino; e de Thereza Gualtieri Gallo.
Irmã de: Ângela (Angelina) T. Amêndola, Leonor, Francisco, Humberto, Antônio, Gercen T. de Modena, Maria Assumpta, Izabel, Laura, Palmira e Félix;
Cunhada de: Miguel João Amêndola, Marina Elydia Frazatto, Encarnácion Rodríguez, Leopoldina Ricci e Antônio de Modena.
Iniciou os seus Estudos Musicais de Piano, aos sete anos, com a Profa. Maria Izabel Fonseca e apresentou-se aos nove anos, no Clube Semanal de Cultura Artística, com um programa exclusivamente seu, em cujo repertório de 15 (quinze) peças musicais, destacava entre outras, a 5° Sonata de Haydn e Polonaise Op. 40 de Chopin.
Em seguida, passou a receber orientação do Maestro Michael Berkowitz, russo de nascimento, diplomado pelo Conservatório de Berlim, contemporâneo de Arthur Rubinstein e seguidor da Escola Pianística Franz Liszt.
Aos treze anos, Dalva Tírico apresentou-se como solista da Orquestra Sinfônica de Campinas, sob regência do Maestro Salvador Bove. Atuou como solista em Concerto Sinfônico na Rádio Gazeta, sob regência do Maestro Souza Lima e em Campinas, por ocasião do Centenário da Imprensa.
Desde então desenvolveu intensa atividade artística, não só como pianista, mas também no Magistério. Executou obras dos mais famosos autores sob regência de renomados Maestros, dentres eles, Eduardo de Guarnieri e Luiz de Tullio.   Durante sua vitoriosa carreira de concertista recebeu inúmeros prêmios, como o troféu da Ordem dos Músicos do Brasil, recebido em 1983.

 

Relíquia dos Furlani

Belíssimo arquivo fotográfico enviado gentilmente por DANIEL A. FURLANI, do Depto. Comercial do Luminosos Campinas.

Campinas agradece a valiosa contribuição!

 

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Alberto Furlani, Diretor de Logística da Singer, emitindo a primeira carga fabricada em 1950. Coleção particular de DANIEL A. FURLANII.

 

Alberto Furlani, Diretor de Logística da Singer, emitindo a primeira carga fabricada em 1950. Coleção particular de BRUNO FURLANI.
Alberto Furlani, Diretor de Logística da Singer, emitindo a primeira carga fabricada em 1950. Coleção particular de DANIEL A. FURLANI.

 

 

Alberto Furlani, Diretor de Logística da Singer, emitindo a primeira carga fabricada em 1950. Coleção particular de BRUNO FURLANI.
Alberto Furlani, Diretor de Logística da Singer, emitindo a primeira carga fabricada em 1950. Coleção particular de DANIEL A. FURLANI.

 

Rua Americana, no Jardim Campos Elíseos em 1952.   Coleção particular de BRUNO FURLANI.
Rua Americana, no Jardim Campos Elíseos em 1952. Coleção particular de DANIEL A. FURLANI.

 

Rua Americana, no Jardim Campos Elíseos em 1952.   Coleção particular de BRUNO FURLANI.
Rua Americana, no Jardim Campos Elíseos em 1952. Coleção particular de DANIEL A. FURLANI

 

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Alberto Furlani, de costas, recepcionando o Presidente da Singer do Brasil. Coleção particular de DANIEL A. FURLANI.

 

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Alberto Furlani, primeiro da esquerda, em pé, com 17 anos – o mais novo gerente da Singer do Brasil. Coleção particular de DANIEL A. FURLANI.

 

lberto Furlani, segundo, da esquerda para a direita, em conversa com colaboradores da Singer em festa Junina organizada por ele. Coleção particular de BRUNO FURLANI.
Alberto Furlani, segundo, da esquerda para a direita, em conversa com colaboradores da Singer em festa Junina organizada por ele. Coleção particular de DANIEL A. FURLANI.

 

Alberto Furlani, recepcionando a família Foulcault da França, vieram contratados pela Singer do Brasil.  Coleção particular de BRUNO FURLANI;
Alberto Furlani, recepcionando a família Foulcault da França, vieram contratados pela Singer do Brasil. Coleção particular de DANIEL A. FURLANI.