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Theodoro

Publicado 31/03/2017 por lcs2308

Um trecho muito interessante do livro ” Crônicas de Campinas, séculos XIX e XX” (páginas 54 a 59) do Ilustre Dr. Jorge Alves de Lima.

27.02.1887

Nota de 27 de fevereiro de 1887

Theodoro, o escravo
Em uma sexta-feira, dia 4 de Setembro de 1885, a população campineira, através de anúncio inserido nos jornais Diário de Campinas e Gazeta de Campinas, tomou conhecimento de uma fato inusitado, cujo teor reproduzimos na íntegra:
“Corrida no Hipódromo Campineiro-domingo, 6 de Setembro – O célebre corredor Achylles Bargossi, cognominado -homem locomotiva- correrá às 4 horas da tarde, 32.180 metros. Bargossi fará 20 voltas. Quem quiser competir com ele, a pé ou a cavalo, pode dirigir-se à imprensa ou ao Hotel da Europa. Durante a corrida tocará a banda de música italiana. Os bilhetes estão desde já à venda na casa dos Srs. A. Genoud & Cia, à Rua Direita (atual Barão de Jaguara)- “Le Mond Elegant”.”
O atleta Bargossi fazia grande sucesso na Europa, pois, além de vencer os maiores corredores da época, vencia qualquer cavalo. […]
A cidade se alvoroçou, as apostas começaram na base de 3 para o cavalo e 1 para o corredor. O dia da corrida foi de intensa movimentação. O povo afluiu para o Hipódromo do Bonfim a pé, a cavalo, de carruagem e de bonde de tração animal, superlotando-o, a ponto de não haver lugar no momento do evento. Na hora marcada, Bargossi, vestindo roupa apropriada e justa no corpo, calçado, entrou na raia, tendo apenas como competidor um belo cavalo montado por um cavaleiro. No último instante, para a surpresa geral do público, apresentou-se para a corrida um jovem de vinte anos, de nome Theodoro, de cor negra, sorriso largo e franco ostentado na face. Era escravo humilde e trajava calça de algodão azul, amarrada com cinta e camisa de chita vermelha. Descalço! O seu senhor era o fazendeiro Joaquim Lopes Coelho, proprietário da fazenda Macaco Branco, distante de Campinas 4 léguas, ou seja, quase 28 Km.
Refeito da surpresa pela participação de Theodoro, o corredor italiano, ao lado deste e do fogoso cavalo, posicionou-se para a corrida.
Às 3h55 da tarde foi dada a largada, partindo imediatamente o cavalo a toda velocidade, acompanhado a longa distância pelos corredores. O animal, aos 2.500 metros, já havia completado quatro voltas, quando o condutor retirou-o da raia, por cansaço. A competição prosseguiu entre Bargossi e o cativo, não revelando este a menor fadiga. Todavia, para a surpresa da platéia, na 12º volta, Theodoro ultrapassou Bargossi, chegando por um instante, a correr de costas, batendo palmas a ele, em atitude de estímulo e desafio. O povo foi ao delírio, entusiasmado pela performance do escravo, que não cedia passo ao atleta italiano. Às 6h13, Bargossi completou 20 voltas, seguido de Theodoro, que perdeu a corrida apenas na última volta, por uma diferença de 50 metros.
O escravo recebeu uma verdadeira ovação popular e foi carregado nos braços da multidão, acompanhado por uma banda musical através das principais ruas de Campinas até o Largo do Rosário. Neste local, após rápido exame médico efetuado pelo Dr. Valentim Silveira Lopes e pelo Dr. Guilherme da Silva, Theodoro foi fotografado pelo célebre retratista Nickelsen e sua foto foi exposta na Exposição Regional de Campinas, realizada em Dezembro de 1885, quando pela primeira vez foi executado o hino de Campinas, “O Progresso”, de autoria do imortal Antonio Carlos Gomes.
Por sua vez, Achylles Bargossi não se mostrou contrariado. Na competição revelou toda sua condição de emérito esportista, correndo com método, técnica e elegância. À noite, ao lado de Theodoro, o corredor europeu, gentil e risonho, assistiu no teatro Rink à ópera cômica Princesa dos Cajueiros, de autoria de Artur Azevedo e música do maestro Sá Noronha.
Campinas ficou impressionada com a estupenda performance do escravo Theodoro na competição realizada no Hipódromo do Bonfim. Essa admiração ainda mais se acentuou quando se soube que, na véspera da corrida, Theodoro viera da Fazenda Macaco Branco até Campinas para comprar remédios ao seu senhor, percorrendo a distância de ide e volta de 8 léguas (56Km) em apenas 3 horas.
Contudo havia ainda mais. Na véspera do evento, ao lado de outros cativos, trabalhara pesadamente o dia todo nos serviços da fazenda. E, finalmente, no dia da corrida, veio de sua morada, andando mais de 28 Km, chegando sem qualquer descanso, no instante da sua realização. Além do que, Bargossi correu calçado e com roupa apropriada, que facilitava os movimentos, enquanto Theodoro estava vestido com simplicidade e descalço; o corredor italiano estava intensamente treinado, tanto no aspecto físico como tático para corridas de longo percurso; Theodoro era, apenas, exigido no pesado e cruel trabalho escravo e contava tão somente com seus robustíssimos pulmões. […]
Analisando esses fatos, Campinas mais se entusiasmou e valorizou a atuação de Theodoro contra o célebre corredor europeu: liderada pelo delegado de polícia Capitão João Gonçalves Pimenta, mediante subscrição popular, deu-lhe o mais precioso bem, a Liberdade.
No ato da assinatura da escritura de alforria, o ex-escravo passou a adotar o nome de Theodoro Bargossi, em sinal de gratidão ao valoroso atleta italiano Achylles Bargossi.

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